
Sobre discursos presidenciais em tournée e livros que raramente saem do lugar
Em Cabo Verde, os livros viajam pouco. Publicam-se, apresentam-se uma vez – às vezes duas – e regressam depois ao seu destino habitual: a discreta permanência nas prateleiras. O ensaio vive assim, entre alguns leitores fiéis e muita indiferença pública. Não é apenas falta de leitores; é também falta de circulação.
Por isso chama a atenção ver o Estado mobilizar-se para apresentar, ilha após ilha, um livro de discursos presidenciais. Nada contra: os discursos de um Chefe de Estado pertencem à memória institucional do país, e reuni-los em livro é gesto legítimo.
O que surpreende é outra coisa: o livro ganhar passaporte oficial e iniciar uma espécie de tournée republicana pelo arquipélago.
A pergunta surge então com naturalidade – e é perfeitamente republicana: estamos perante um acto de memória institucional ou perante um exercício de promoção política?
A interrogação não contém acusação. Contém apenas estranheza. Porque, verdade seja dita, raramente o Estado organiza apresentações nacionais para livros de ensaio ou pensamento – raramente mobiliza o país para levar às ilhas obras que ajudam Cabo Verde a pensar-se e a discutir-se.
Talvez seja apenas a República em movimento.
Mas fica a pequena sugestão – que também é uma pequena alfinetada.
Se a República tem energia para levar discursos presidenciais a todas as ilhas, talvez pudesse levar também – de vez em quando – os livros que ajudam o país a pensar.
E não apenas os que falam em seu nome.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
Excelente. Como é óbvio, as alfinetadas também picam.