O achismo tomou a palavra

      Cabo Verde fala muito, comenta muito, opina muito. As redes sociais abriram uma praça permanente, onde cada cidadão pode dizer a sua palavra. Isso representa um ganho democrático. A dificuldade começa quando a palavra pública se afasta da leitura, do estudo e da responsabilidade, nascendo mais da pressa do que da reflexão.

Crioulidade: Quando uma Ideia Ganha Mundo

    As ideias também têm geografia.   Começam pequenas, circulam entre poucos, experimentam palavras, mudam de forma e, quase sem anúncio, começam a ocupar espaço. Um dia percebemos que já saíram dos livros, atravessaram conversas e entraram na praça pública. Não porque alguém lhes tenha aberto caminho por decreto, mas porque ganharam capacidade de

Universidade pública: pluralismo ou instrumentalização?

    No Brasil, professores, investigadores e intelectuais voltaram recentemente a defender pluralismo e liberdade académica. O debate recordou uma evidência simples: universidade viva depende de pensamento livre, confronto de ideias e abertura à diferença. Quando esses pilares enfraquecem, a instituição preserva fachada, multiplica solenidades e começa discretamente a perder alma crítica.   Em Cabo

Cabo Verde Não Cabe Numa Origem

    Corrigir o olhar é necessário. Deslocá-lo também. Tem ganho espaço uma leitura que inscreve Cabo Verde na história africana do Atlântico, sublinhando a violência da escravidão, o peso do colonialismo e a marca profunda das culturas africanas. Nada a opor. Era preciso dizê-lo, recentrar o olhar, repor densidade histórica.   Mas recentrar não

Livros que viajam

      Sobre discursos presidenciais em tournée e livros que raramente saem do lugar     Em Cabo Verde, os livros viajam pouco. Publicam-se, apresentam-se uma vez – às vezes duas – e regressam depois ao seu destino habitual: a discreta permanência nas prateleiras. O ensaio vive assim, entre alguns leitores fiéis e muita

O sinal da ironia

    Há tempos, numa conversa com a editora de Germano Almeida, surgiu uma observação que me ficou na memória. Muitos alunos lêem os seus livros como se tudo fosse literal. Seguem a história, acompanham as personagens, mas deixam escapar aquilo que, na verdade, sustenta grande parte da arquitectura da escrita: a ironia.   A