
Há tempos, numa conversa com a editora de Germano Almeida, surgiu uma observação que me ficou na memória. Muitos alunos lêem os seus livros como se tudo fosse literal. Seguem a história, acompanham as personagens, mas deixam escapar aquilo que, na verdade, sustenta grande parte da arquitectura da escrita: a ironia.
A ironia não é mentira nem sarcasmo fácil. É, antes, uma forma refinada de inteligência literária. O autor afirma, mas desloca o sentido; elogia, mas deixa no ar uma interrogação; exagera apenas o suficiente para revelar a pequena comédia humana que se esconde nas situações mais banais do quotidiano.
Foi então que, entre a observação e o sorriso, ela e eu acabámos por concordar numa ideia simples: criar um pequeno sinal gráfico de ironia. Nada de elaborado. Apenas um símbolo discreto colocado no início e no fim de certos trechos, como quem diz ao leitor que, a partir dali, as palavras podem não estar exactamente onde parecem estar.
Seria, digamos, um piscar de olho tipográfico.
A proposta tem algo de pedagógico e algo de divertido. Mas confesso que, desde então, a ideia não me saiu da cabeça. Porque, pensando bem, um sinal desses talvez não fosse útil apenas para orientar leitores de romances.
Talvez um dia inventemos esse sinal.
Há discursos que se apresentam com toda a solenidade institucional, mas que, vistos com um pouco de distância, pertencem mais ao território da comédia involuntária do que ao da reflexão séria. Um pequeno símbolo de ironia ajudaria, nesses casos, a orientar o cidadão: atenção, daqui para a frente convém ler com cuidado – ou, pelo menos, com algum sentido de humor.
É por isso que gosto de escrever Alfinetadas.
Não para ferir nem para acusar, mas para lembrar que, em certas circunstâncias, a ironia continua a ser uma das formas mais elegantes de dizer a verdade. Porque há momentos em que um país se revela menos no que proclama com solenidade – e mais naquilo que, sem dar por isso, acaba por nos fazer sorrir.
Até lá, resta confiar numa coisa antiga: a inteligência do leitor.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
Gostei muito.
Batcha.