
Na última Alfinetada falei do ponto da ironia e da utilidade que teria um pequeno sinal gráfico capaz de avisar o leitor de que, a partir dali, convém ler com algum cuidado – ou, pelo menos, com algum sentido de humor. A ideia pode parecer moderna. Na verdade, não é: muito antes de a palavra circular com naturalidade nas conversas literárias das ilhas, Nhô Roque – António Aurélio Gonçalves – já tinha levado a ironia suficientemente a sério para lhe dedicar um pequeno ensaio.
Corria o ano de 1937 quando publicou Aspectos da Ironia de Eça de Queiroz, procurando perceber o mecanismo íntimo de uma das armas mais discretas e mais eficazes da literatura realista. Para Eça de Queirós, recordava Aurélio Gonçalves, a ironia não era simples ornamento de estilo: era instrumento de observação crítica, uma forma de revelar como o ser humano constrói ilusões para si próprio até ao momento em que a realidade, impassível, se encarrega de as desfazer.
Nos romances de Eça, esse movimento repete-se quase como uma lei silenciosa: o sonho desfaz-se, a máscara cai e o destino revela a sua face irónica. Não admira que um jovem mindelense, então estudante em Lisboa, se tivesse detido nesse mecanismo. Talvez porque quem cresce numa cidade aberta ao mar aprende cedo a observar o mundo com alguma distância. A geração que viria a fundar a Claridade sabia que a literatura não serve apenas para cantar o mundo; serve também para o observar.
Talvez por isso a ironia continue a ser uma das formas mais elegantes de crítica. Não grita nem declama. Limita-se a deslocar ligeiramente o olhar – e, nesse pequeno deslocamento, o mundo revela-se.
Foi isso que Nhô Roque percebeu cedo. Diante de certas ilusões demasiado sérias, terá simplesmente sorrido. Porque a ironia, afinal, não é apenas uma figura de linguagem: é uma forma de inteligência – e, por vezes, a maneira mais elegante de dizer certas verdades sem levantar a voz.
Nota | Curtas – Apontamentos breves sobre lugares, gestos e episódios do quotidiano que o tempo tende a apagar.
– Manuel Brito-Semedo