
Cabo Verde fala muito, comenta muito, opina muito. As redes sociais abriram uma praça permanente, onde cada cidadão pode dizer a sua palavra. Isso representa um ganho democrático. A dificuldade começa quando a palavra pública se afasta da leitura, do estudo e da responsabilidade, nascendo mais da pressa do que da reflexão. Nesse ponto, aquilo que poderia ser participação transforma-se facilmente em ruído com aparência de pensamento.
Foi-se instalando entre nós uma forma cada vez mais corrente de intervenção pública: o achismo. Cada um acha, comenta, conclui e segue em frente, muitas vezes com a segurança tranquila de quem leu pouco, mas já decidiu o bastante para opinar. A opinião chega depressa demais, quase sempre antes do conhecimento, e o pensamento, que precisa de tempo, dúvida e maturação, perde o espaço necessário para se formar.
O país sofre menos por falta de palavras, comentários ou indignações do que por falta de densidade, leitura e cultura de debate. Há muitas vozes no espaço público e, ainda assim, pouca elaboração. Há muitos diplomas e pouca capacidade de discutir com método. Circula muita informação e sedimenta pouco conhecimento. A escola abriu portas, e fez bem, mas abrir portas exige ensinar a atravessar a casa com sentido crítico.
A cultura constrói-se com mais do que eventos, discursos e fotografias oficiais. Precisa de bibliotecas, arquivos, revistas, crítica, livros, escolas exigentes, universidades vivas e leitores formados. Precisa igualmente de cinemas, teatros e salas de espectáculo dignos desse nome. Um país que fala tanto de cultura e continua sem espaços adequados para a criação, a fruição artística e o encontro público revela a fragilidade do lugar que reserva à cultura.
A língua cabo-verdiana merece mais do que entusiasmo. Merece estudo, instrumentos, professores preparados, materiais escolares, produção literária e consenso técnico. Oficializar uma língua antes de preparar o chão onde ela deve caminhar equivale a pôr a bandeira antes da estrada. A causa pode ser justa, mas precisa de método, tempo e responsabilidade. Crioulo e português pertencem à nossa história. Colocá-los em confronto empobrece Cabo Verde. A inteligência está em cuidar dos dois com seriedade e visão de futuro.
A identidade cabo-verdiana exige mais do que palavra de ordem ou nostalgia conveniente. Cabo Verde ultrapassa qualquer origem única e qualquer pureza imaginada. É feito de ilhas, mar, portos, deslocações, encontros, feridas, adaptações e criação contínua. Somos crioulos porque a nossa história nos fez assim. Reconhecer essa complexidade é uma forma de respeitar Cabo Verde.
O país precisa de pensamento, trabalho, leitura e responsabilidade para que a palavra pública recupere densidade. Quando todos falam ao mesmo tempo e poucos escutam, a praça pública perde qualidade, a cidadania fica mais pobre e a ignorância aprende, com surpreendente desenvoltura, a apresentar-se como opinião esclarecida.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo