Cabo Verde visto por Manuel Brito-Semedo

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Germano Almeida, A Nação | Nº 860 | 22 de Fevereiro de 2024

Eu estou escrevendo em missão de defesa. Na verdade, sou aqui advogado constituído do arguido Brito Semedo, acusado do crime de lesa-pátria por oralmente ter retirado Cabo Verde do seu natural espaço africano.

Curiosamente, não desde que lançou no mercado o seu livro CABO VERDE – ILHAS CRIOULAS (DA CIDADE PORTO AO PORTO CIDADE), mas antes, desde a entrevista em que falou do livro, e da qual saíram em letras garrafais que Cabo Verde não é África:

“Antropólogo Brito-Semedo afirma que as ilhas cabo-verdianas não são africanas” – “Antropólogo diz que o destino de Cabo Verde não é África, pois a sua viragem é “toda para a Europa””. Eu li a entrevista e confesso ter achado a afirmação algo temerária.

O meu amigo está a procurar sarna para se coçar, pensei. Mas depois li o livro todo, em grande parte em busca da prova em palavras claras dessa afirmação revolucionária e quase generalizadamente condenada como criminosa. Inutilmente! Na realidade, não existe, ao longo de todo o livro, absolutamente nada a demonstrar que o autor fundamenta com propriedade essa afirmação.

Melhor diria: nem a provar que Cabo Verde não é África, nem a desmentir a condição africana de Cabo Verde.

Atrevo-me a dizer que neste aspeto particular, o livro é rigorosamente neutro. Portanto, o eventual crime do Brito-Semedo está na afirmação que terá feito na entrevista: as ilhas cabo-verdianas não são africanas.

Porém, e antes da condenação definitiva do dr Brito-Semedo, vale a pena perguntar, Que é isso de se ser africano? Podemos afirmar a existência, a realidade de uma cultura africana? Durante muitos anos os europeus o fizeram. Tudo que é África é quel mé, é tudo a mesma coisa. Seja futebolista, seja escritor, seja cantor, é tudo africano.

Eu mesmo, quando começaram a publicar os meus livros em Portugal, era chamado de um autor africano. Aliás, a própria Editorial Caminho tinha uma coleção chamada de “autores africanos” onde eu também estive metido.

Foi uma luta sair desse colete de forças. Eu questionava-os: por acaso já ouviram um português identificar-se dizendo que é europeu? Não, ele diz que é português. E eu também digo que sou cabo-verdiano.

Do mesmo modo que não há um só europeu, também não há um só africano. Para apenas falar de nós, grosso modo podemos dizer que há tantas culturas africanas quantos os povos existentes em áfrica. Podemos comparar com uma garrafeira dos vossos diversos vinhos, dizia-lhes. São todos de Portugal, porém conforme as regiões, assim temos qualidade diferente, maior ou menor acidez ou densidade, uns mais encorpados que outros, aquele de paladar mais suave… E, no entanto, são todos vinhos portugueses. Do mesmo modo, não há uma cultura africana, temos culturas, próximas ou muito diferentes, conforme os povos de cada região. Tudo África. E é por isso que nós exigimos o rótulo de cabo-verdianos antes de entrarmos na grande garrafeira que é a África.

Mas sem dúvida que o cabo-verdiano tem um fraquinho pela Europa. Claro que vou logo adiantando que sei que não é geral, digo assim apenas para facilitar. Mas também não devia ser de estranhar, a quase generalidade dos primeiros intelectuais cabo-verdianos eram todos filhos de portugueses por qualquer razão vindos para Cabo Verde. Dos antigos, pode escapar o Pedro Cardoso. Assim de imediato, não vejo mais nenhum. E por essa razão se afirmavam ao mesmo tempo portugueses e cabo-verdianos. E o grande sonho deles, transformado em desígnio nacional, era verem as ilhas de Cabo Verde com estatuto igual à Madeira e Açores: ilhas adjacentes! E conseguiram durante breve tempo, por obra e graça do Marquês de Sá da Bandeira que tinha um fraco por Cabo Verde. Aliás, o seu ajudante de campo era um oficial natural da ilha da Boa Vista.

Mas mal ele morreu, tudo voltou à estava zero. Porém, nós continuávamos insistindo na adjacência, não queríamos tomar consciência da não existência de europeus negros, e a nossa esperança fixou-se em Gilberto Freire: mal o grande sociólogo nos espreitasse, logo confirmaria a nossa condição europeia. Mas não, por onde passou, ele só viu África! Vale a pena lembrar as palavras magoadas de Baltazar Lopes no seu excelente opúsculo, Cabo Verde, visto por Gilberto Freire: O messias desiludiu-nos!

Mas não se deve avaliar com excessivo rigor a defraudada tentativa dos claridosos de nos quererem meter na Europa. Devemos antes lembrar que todos eles eram intelectuais de formação académica europeia e que não conheciam a África. Há que não esquecer que praticamente até aos inícios dos anos 60 do século XX, a África, mesmo a portuguesa, era o “sul” para onde se mandavam os degredados merecedores de maior castigo. Por exemplo, o capitão Ambrósio foi mandado para o “sul”.

Porém, ainda hoje muito mal conhecemos a África e muito pouco temos feito nesse sentido. Assim, a acusação de “reafricanização dos espíritos” é muito mais um slogan para irritar o PAICV, praticamente sem já qualquer correspondência com a realidade política ou social. Mas já que de livros estamos falando, quantos de nós conhece que o Senegal, a Nigéria, o Gana, têm uma literatura pujante? É verdade que a língua nos impede em grande medida esse conhecimento, porém é também verdade que o Brasil tem dado um forte impulso à divulgação dessas literaturas e qualquer interessado pode ter acesso a elas.

Conhecendo mal a África, fomos e somos ainda levados a conhecer bem a Europa. Politicamente, literariamente, socialmente, economicamente. Lembrando Oliveira Barros, o Dick, “a hipnose Lisboa já vem desde “infância”. “Os letrados cabo-verdianos de Portugal, os portugueses de Cabo Verde, buscaram sempre o consagrante olhar de Lisboa. São Tomé é fome e doença, Lisboa é deslumbramento”. Ora, ainda hoje, 50 anos passados sobre a independência, continuamos a buscar freneticamente a consagração da Europa!

É verdade que continua a haver muita relutância e até resistência, curiosamente mesmo de alguns intelectuais nacionais, em aceitar que pensemos pelas nossas próprias cabeças. Há tempos um português questionou-me com alguma severidade por eu ter dito numa entrevista que não somos lusófonos. Ele não aceitava isso de modo algum e achou péssimo que eu o tivesse dito. Quase que me forçava a pedir-lhe desculpas pela negação, não é má vontade, disse-lhe com pesar, é apenas uma realidade, a colonização portuguesa não teve serventia de nos fazer cidadãos lusófonos.

De modo que, em vez de denegrir Brito-Semedo, deveríamos antes louvá-lo pelo seu Cabo Verde – Ilhas Crioulas. Deixados em África ou fora dela, o certo é ele brindou-nos com um excelente manual de divulgação das nossas ilhas. Se quis realmente escrever um livro de eventual contestação, acabou escrevendo um livro de exaltação ao que somos.

Mas lendo Brito-Semedo eu lembrava-me em Dom Juan. Dom Juan era um sedutor nato, vivia pelo prazer de atrair as mulheres que sempre abandonava em busca de novas experiências. Mas certa vez encontrou uma por quem se mostrou verdadeiramente apaixonado. E as coisas correram tão bem, que em certo momento ela diz-lhe, Finalmente dei-te o amor! E Dom Juan ainda na lassidão do prazer satisfeito, responde, embora sem intenção de a magoar, Finalmente não, mas uma vez mais!

É isso, se Brito-Semedo, com o seu livro, se permitisse dizer a Cabo Verde, finalmente dei-te uma identidade, Cabo Verde certamente responderia, Finalmente não, mas uma vez mais.

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