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Nem sempre a força está no volume: basta a picada certa. Foi assim que nasceu Alfinetadas, em Setembro de 2014, com Tiremos a Boca do Morto. Desde então, a rubrica tem-se mantido fiel ao seu ADN: observar, escolher o alvo e disparar – sem pedir licença, sem medo de ferir.
Nestes onze anos, ficaram crónicas que ainda hoje doem. Ai Deus, IUE?! expôs a cumplicidade entre discurso poético e mal-estar social, mostrando como a ironia popular pode ser mais certeira do que muitos discursos oficiais. Soncent di Longe mostrou como uma tragédia natural escancarou a incúria local. A República Suplente reduziu a solenidade republicana a espectáculo de bancada. Monumento com Cartão de Militante revelou como até a bandeira nacional pode ser sequestrada por interesses partidários.
Entre as mais recentes, destaca-se A Inveja do Criôl: estocada contra o veneno mais persistente da nossa terra – a mania de puxar para baixo quem se ergue, de transformar mérito em suspeita e talento em rasteira.
Alfinetadas nunca foi bordado delicado. É costura a sangue frio, ponto a ponto, até deixar a ferida aberta. Mas também é espelho: devolve a imagem crua de uma sociedade que prefere fingir que não vê.
Onze anos depois, mantém a mesma pontaria e a mesma função de contra-poder. Porque, em Soncent, diz-se com razão: “criôl gosta mais de puxar o pé do irmão do que de lhe segurar a mão”. Enquanto esse veneno persistir, haverá sempre uma Alfinetada pronta.
– Manuel Brito-Semedo