
"Nha Búzio", Tutu Sousa, Acrílico sobre tela, 2025
Está escrito: ninguém é profeta na sua terra. E na terra criôl, a máxima tem tradução simples: criôl gosta de puxar o seu irmão para baixo. O estrangeiro chega, abre a boca, e logo é génio. O vizinho fala, e é apenas “basofaria de criôl”. O defeito não está no talento, está na proximidade: quanto mais perto, mais incomoda.
A inveja é cega, mas tem ouvidos finos: ouve logo o sucesso alheio e interpreta como insulto pessoal. O que poderia ser orgulho vira azia, sempre com a mesma pergunta não dita: “porque ele e não eu?”. E se ele se sobressai, em vez de ser celebrado, passa-se-lhe a rasteira, corta-se-lhe as asas ou ata-se-lhe pedra ao pé.
Daí o drama da terra pequena: onde todos se conhecem, poucos suportam ver o outro crescer. O sucesso do vizinho não é vitória partilhada, é ameaça. Se um criôl escreve um livro, logo se diz que foi cópia da internet; se grava um disco, há-de ser para “encher chouriços”; se abre um negócio, foi porque teve cunha de alguém. Depois admira-se que o melhor da casa tenha de emigrar para ser reconhecido.
O resultado? Um país que desperdiça talentos e se alimenta de bajulações. Um povo orgulhoso da diáspora, mas cego para os que ficaram. Uma terra onde a inveja se disfarça de crítica séria, mas não passa de mesquinhez.
Porque, em terra criôl, não se coroa o profeta – corta-se-lhe a cabeça.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo