República de Botequim

 

República de Botequim.png

Imagem gerada pela IA

 

 

Há quem tome a liberdade de expressão por pretexto para falar mais alto do que os outros. Quando o debate político troca o argumento pelo grito, a praça pública assemelha-se a um botequim barulhento – e o Estado, a um balcão onde se despejam bravatas e palavras ao desbarato. Entre o microfone e o copo, o país assiste a uma tragicomédia: quem devia representar o povo limita-se a copiar-lhe o tom e confunde autoridade com atrevimento.

 

Nas democracias consolidadas, fala-se com firmeza e escuta-se com respeito; nas frágeis, fala-se por cima e insulta-se. Por cá, as palavras perderam decoro e os debates parecem zaragatas de esquina, com políticos a trocarem farpas e trocadilhos como se estivessem num arraial. Em vez de cumprir as regras democráticas, prefere-se o espectáculo, o golpe de voz, o insulto travestido de coragem.

 

Não se pede erudição, apenas compostura. Falar em nome do povo não é descer ao balcão, é elevar a palavra. A democracia não se cumpre aos gritos, cumpre-se nas regras, no respeito e na escuta. Quando o poder fala como um taberneiro em hora morta, o Estado deixa de ser farol e passa a ser eco. E o cidadão, cansado, paga a conta e sai – como quem abandona uma conversa onde a razão foi servida no copo errado.

O silêncio, nesse país, já não é resistência: é apenas boa educação – até ao dia em que a urna devolva a palavra a quem a souber usar.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

Deixe um comentário