
Em Cabo Verde, a imprensa nasceu antes da própria ideia de Nação estar plenamente formada. Desde meados do século XIX, quando o prelo começou a girar e surgiram os primeiros periódicos não oficiais, passou a fazer parte da experiência quotidiana do cabo-verdiano esse diálogo silencioso – mas persistente – com as páginas impressas.
Não eram apenas folhas de papel. Eram espelhos, janelas e, muitas vezes, trincheiras. Nelas se debatia o presente, se evocava o passado e se imaginava o futuro. Foi ali que se moldou, linha a linha, um sentimento de pertença a uma “comunidade política imaginária”, na feliz expressão de Benedict Anderson. Uma comunidade feita de vozes dispersas, que talvez nunca se encontrassem, mas que partilhavam a mesma inquietação e a mesma esperança.
Do nativismo ao regionalismo e, finalmente, ao nacionalismo, a imprensa cabo-verdiana foi palco e protagonista. Os seus redactores eram, muitas vezes, poetas e ficcionistas – uma elite letrada que fez da palavra escrita uma forma de combate e de consciência cívica. Ao mesmo tempo que defendiam causas políticas, criavam literatura e música, alimentando um património cultural que se tornaria inseparável da ideia de Cabo Verde.
Foi este percurso que procurei estudar em profundidade na minha tese de doutoramento, defendida em 2003 e publicada em livro, em 2006, com o título A Construção da Identidade Nacional – Análise da Imprensa entre 1877 e 1975. Ao longo de quase seiscentas páginas, percorri um século de publicações, dos primórdios do jornal O Independente, em 1877, ao encerramento do Novo Jornal de Cabo Verde, em Julho de 1975, quando o país já respirava a Independência. Nesse trabalho, procurei mostrar como a imprensa cabo-verdiana não foi apenas reflexo, mas também motor desse processo de afirmação identitária – uma narrativa onde as palavras impressas se tornaram actos de cultura e de política.
Hoje, quando folheamos esses jornais amarelecidos pelo tempo, não encontramos apenas notícias antigas. Encontramos a radiografia de um país em formação. Encontramos os debates que ajudaram a definir quem somos. E percebemos que a nossa identidade nacional não nasceu de um único gesto, mas de um longo e persistente diálogo – entre nós e sobre nós – que a imprensa soube registar e amplificar.
Talvez por isso, cada vez que vejo um jornal antigo de Cabo Verde, sinto que não estou apenas a ler história. Estou a conversar com aqueles que, muito antes de nós, já pensavam o país. E, de certo modo, continuam a falar-nos.
– Manuel Brito-Semedo
P.S. – Este é o post nº 2.374.