Aproveito para partilhar convosco o meu testemunho de filha que fiz por ocasião de uma linda homenagem da Ordem dos Médicos de CV ao meu pai no passado dia 15 Janeiro em Mindelo:
De baixo do mesmo tecto só vivi os primeiros cinco anos da minha infância ao lado do meu pai.
Apesar da minha tenra idade, ainda tenho bem presente a alegria com que o recebia à porta, quando regressava de um dia intenso de trabalho ou de uma longa viagem, em missão de serviço. Ele era o meu herói, carinhoso, presente em todas as minhas fantasias, um homem inteligente e importante: ministro e “dotor d´ cabeça” como muitos diziam, em conversa. Ele era o meu mundo, meu porto seguro. Sempre que viajava, eu adoecia!
A vida, entretanto, privou-me de ter um pai presente durante a minha adolescência/juventude, pois ele teve que regressar ao Brasil, e eu fui construindo o meu futuro, percorrendo três continentes, pela estrada fora da vida académica. E assim, tornei-me menina e moça, estudante aplicada, profissional dedicada, tudo isso motivo de orgulho que foi para o meu pai Ireneu.
A repentina partida dele naquele triste dia ainda faz ecoar a dor no meu coração. O nó na minha garganta aperta, sempre quando penso que, com o seu físico desaparecimento, já não poderei desfrutar da fonte de sabedoria e de experiência enriquecedora que sei que o meu pai comportava. Infelizmente, o tempo não volta mais…! O que me consola é saber que pude proporcioná-lo algum orgulho que o fez muitas vezes sentir-se um homem feliz, pois todo o mundo me diz que os seus olhos brilhavam sempre que de mim ele falava! “A minha mãe só pariu uma vez, e eu só tive uma filha, mas que vale por mil”, dizia ele.
Ireneu Gomes foi um homem de princípios herdados dos seus progenitores. Foi pessoa amiga e solidária, frontal e leal, de um humanismo reconhecido e que soube, à sua maneira, amar o seu país. Foi um profissional com competência que se lhe reconhece. Ele deu muito de si a Cabo Verde, como homem e profissional que entregou-se à causa da saúde dos cabo-verdianos, ao nosso sistema de saúde, ao ensino da psiquiatria no Brasil, e aos seus pacientes que lhe procuravam para aliviar as suas aflições emocionais. De mim, teve que me retirar um pouco do privilégio da sua companhia para poder exercer com devoção a sua vocação, entregando-se mais aos cuidados daqueles que mais precisavam dele como médico.
Do meu pai herdo o sentido do dever, a integridade, seriedade e também o humor. Com ele aprendi a ver a sociedade (cabo-verdiana) com lentes críticas, passei a valorizar mais as verdadeiras amizades, a apreciar momentos de introspecção, e a conviver com as fragilidades humanas.
– Dália Gomes

Devo dizer que eu e o Ireneu , conheciàmos desde de criânça , embora sendo eu mais velho do que êle mas que nessa altura êle jà jogava futebol connosco ; eu Morgadinho , ” Chàla ” e Antoninho de Nhô Toy Ferreira , Augusto e Zeca , filhos do Sr.Cesàrio Brito , todos moradores em Fonte Cônego . Eu morava em Fonte Filipe zona ao lado , que me permetia estar juntos com êles e fazer sempre aquela partida de futebol . Apos muitos anos na diàspora de volta a Cabo Verde , de férias , a minha agradàvel surpresa foi encontrar com Ireneu na barbearia SONY , em Sao Vicente ,mas que a minha tristeza foi tanto , o Ireneu nao me reconheceu ?!.Tentei recordà-lo ( infelizmente em vao ) , a nossa amizade dos tempos da nossa juventude e que eu tinha sido mesmo , aluno do seu pai Norberto Gomes !.Um Criol na Frânça ; Morgadinho !.