Que estas duas linhas de cartinha mal alinhavadas, mas bem intencionadas, te encontrem bem de saúde e com boa disposição!
Ah, a alegria de receber uma cartinha da terra longe, o alvoroço da vizinhança quando chegava uma cartinha de além-mar, de alguém que não se via há tantos anos, de alguém que talvez não se volte a ver…
… uma cartinha muito bem dobrada, à boa moda antiga, que talvez escondesse nas suas reentrâncias umas notas de dólares, de escudos, de francos, de liras ou de guildas, para equilibrar o orçamento doméstico e encher a panela daqueles que ficaram nestas ilhas desafortunadas…
… uma cartinha escrita com letras trémulas, de mãos calejadas de emigrantes semi-analfabetos. Uma cartinha com letra fina, escrita por alguém que foi contratado, por uns tostões, para escrever aquelas duas linhas que lhe foram ditadas por quem não sabe ler nem escrever..
… uma cartinha cheia de erros de português, mas também cheia de saudade, de amor, de carinho, de ternura, de preocupação, de aperto no coração…
… um cartão postal de uma paisagem europeia, um cartão de Boas Festas, um cartão de aniversário, umas fotos que vão enfeitar a mesa da sala de visitas, um telegrama …
… um mnin que tá bem tá corrê, tá cunquí na porta d’ gent, ta gritá: – Ó, Mam Bia, bocê bá respondê lá na correi. Tem um carta pá bocê, d’ strangêr, bocê bá dpréssa …



Com um selo que desconhecia vejo que homenagearam o grande vate santantonense Januàrio Leite, um primo da minha avó paterna.
Nesta homenagem filatélica vejo outra cara que me é desconhecida mas conhecida, também, é a cantora Lura e sua morna – Cartinha – das melhores que ela canta e talvez com mais simbolismo para o caboverdiano “de fora” que nunca esquece o seu torrão natal porque fisicamente na terra longe e espiritualmente na sua ilha.
Bom dia e votos de uma boa semana 🙂
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