Alfândega Velha, Mindelo. Foto Arquivo Histórico Nacional (AHN), Praia
Nesta minha releitura da Revolta de Nho Ambroze, procurarei trazer para os leitores a revolta popular de S. Vicente, enquanto facto histórico que, com a carga simbólica adquirida no contexto da luta política, se transformou num mito e o seu líder, de forma ampliada, num exemplo da resistência e numa figura mítica, quase lendária.
NHO AMBROZE, A REVOLTA DE UM POVO
A década de trinta entrara com uma grave crise mundial – a recessão económica de 1929-1934 – e Cabo Verde não pôde deixar de sentir a repercussão dessa crise.
Até então, o equilíbrio económico e financeiro de Cabo Verde era conseguido, quase exclusivamente, à custa de dois factores: (i) a emigração para a América, Argentina e Brasil, com a sua remessa de poupanças; e (ii) as actividades do Porto Grande de São Vicente, com os seus depósitos de carvão e óleos, que eram usados no abastecimento dos navios que cruzavam o atlântico, e os seus cabos telegráficos, que estabeleciam a ligação entre a Europa e a América do Sul.
Devido à crise de emprego que por toda a parte grassava e às medidas adoptadas pelos países de imigração, restritivas nuns, proibitivas noutros, Cabo Verde e, particularmente a ilha de São Vicente, entraram em pleno declínio.
Em 1932, a ilha de São Vicente atravessava momentos torturantes. A companhia carvoeira Wilson Sons reduziu a semana a 4 dias e meio e falava-se em que, continuando a actual situação, ver-se-iam as outras companhias obrigadas a diminuir o pessoal. Os trabalhadores passavam dias e dias sem trabalho.
A 7 de Junho de 1934, um grupo cada vez mais numeroso de homens, mulheres e crianças percorreu algumas ruas da cidade do Mindelo, arvorando um pano preto a servir de bandeira, aos gritos de MISÉRIA e FOME, na intenção de forçar as autoridades locais a solicitarem ao Governo da Colónia as providências que se impunham para socorrer a população desempregada.
Desde 1927 que tinha sido determinado que não era permitido usar tal designação, “considerando que tal abuso de linguagem não corresponde à verdade” e porque “o efeito moral do emprêgo dessa expressão é deprimente para todos quantos trabalham em Cabo Verde, vexando-os perante a Metrópole e as outras Colónias por dar a impressão de que subsistem numa terra, onde pode supôr-se endémica a miséria dos seus habitantes” (Circular de 28 de Janeiro, publicada no B. O., N.º 5, de 29 de Janeiro).
A marcha dos manifestantes tinha começado na Ribeira Bote, um dos bairros suburbanos da cidade do Mindelo, à beira da porta (e oficina) de Nho Ambroze (Ambrósio Lopes, Santo Antão, 1878 – São Vicente, 11.Junho.1938) – um carpinteiro muito loquaz e desembaraçado, com algum prestígio entre os vizinhos e junto das gentes a que pertencia – que os terá convencido que já era tempo de saírem à rua para fazer saber às autoridades que estavam passando toda a casta de privações por falta de trabalho.
Dirigindo-se à Praça da República (actual Pracinha da Igreja), em frente à Câmara Municipal, solicitaram que esta e a Administração do Concelho telegrafassem ao Governador, mais uma vez, a informar que o povo já não podia sofrer mais do que vinha sofrendo, estando decididos a aguardar, juntos e solidários, sem se dispersar, as medidas requeridas pela situação de miséria que estavam atravessando, como resposta aos seus apelos.
Conforme o jornal Notícias de Cabo Verde, órgão regionalista e independente de S. Vicente, no seu suplemento de 8 de Junho, cerca das 14 horas do dia 7, não se sabendo como, um numeroso grupo daqueles manifestantes invadiu a Alfândega, saqueando alguns armazéns onde havia uma boa quantidade de géneros alimentícios, não obstante os protestos e a resistência de todo o pessoal. O Director, vendo a impossibilidade de resistir à multidão, pediu auxílio à força militar, que ocupou o edifício depois de algumas descargas, no meio das pedradas com que os manifestantes os repeliam. Antes da chegada da força militar, já alguns polícias haviam tentado defender a Alfândega.
Entretanto, pelas ruas da cidade, deslocava-se uma fila interminável de mulheres, homens e garotos que transportavam sacos, latas e demais objectos tirados da Alfândega. De notar que Nho Ambroze não participou nos assaltos aos armazéns, nem beneficiou do respectivo saque. Ele só queria sensibilizar as autoridades, levando-as a tomar, com urgência, as medidas impostas pela situação dos trabalhadores desempregados.
Os manifestantes expulsos da Alfândega, começaram a assaltar os diferentes armazéns das principais firmas. Em vários pontos, os militares abriram fogo, tendo havido dois feridos, um homem e uma rapariga, e um morto, um rapaz de 12 anos, que foi ferido com uma baioneta na ocasião em que se fazia o assalto aos armazéns da firma Alfredo Miranda.

Devido à intervenção do Comandante Militar da cidade, Coronel-Médico Dr. Francisco Regala, e da Associação Comercial Industrial e Agrícola de Barlavento, a multidão abrandou a sua fúria e voltou a juntar-se à porta da Câmara Municipal para se inteirar do conteúdo do telegrama ansiosamente esperado da Praia, de Sua Exa. o Governador Amadeu Gomes de Figueiredo, que apenas dizia: “Acabo telegrafar ministério insistindo pedido providências. Procure acalmar povo até resposta ministério que deverá ser urgente”.
Enquanto isso, a Associação, que tinha sido mobilizada e se encontrava em sessão permanente na sua sede, sita à Rua Infante D. Henrique (actual Avenida 5 de Julho), deliberou:
“– Telegrafar a S. Exas. o Presidente do Conselho, Ministro das Colónias, tenente-coronel Joaquim Duarte Silva, general Viriato Gomes da Fonseca e o Gabinete de Repórteres em Lisboa, nos termos do texto que se transcreve desta acta; Telegrafar a Sexa o Governador nos termos do telegrama que vai transcrito nesta acta;
– Ir uma comissão constituída por alguns dos presentes falar às massas e tentar apaziguá-las e serená-las, levando-as a esperarem pacificamente em suas casas que as autoridades e as pessoas gradas desta ilha consigam das autoridades superiores o estabelecimento de medidas conducentes ao fim que têm em vista, isto é, como medida de inadiável oportunidade, a abertura de trabalhos públicos em larga escala de forma a dar colocação à maior parte, senão mesmo à totalidade dos desempregados”.
Nos telegramas enviados pela Associação ao Governador dizia-se, em resumo, que o comércio tinha fechado em sinal de defesa e protesto e que o povo arrombara e saqueara os armazéns da Alfândega e do comércio, distribuindo entre si os artigos pilhados. Consideravam os lamentáveis acontecimentos como consequência do estado de desespero da população ante tanta miséria, resultante da longa falta de trabalho e paralisação do porto. Acentuavam o seu protesto pelos prejuízos sofridos e afirmavam que apresentariam reclamação fundamentada por vias legais, reconhecendo a necessidade de se abrirem serviços públicos ao povo necessitado, enquanto o problema de Cabo Verde não fosse devidamente enfrentado.
A Comissão enviada pela Associação, constituída por António Augusto Martins, “Nhô Fidjito”, Baltasar Lopes e Augusto Miranda, organizou um comício na Praça da República e recomendou a todos os manifestantes a maior serenidade e que recolhessem a suas casas, pois comprometiam-se a defender, pelos meios legítimos, a causa dos trabalhadores, certos de que o Governador, bem como o Governo, não deixariam de considerar a gravidade da situação e a necessidade de auxiliar o povo de São Vicente. Foi declarado o estado de sítio, sendo a cidade entregue ao Comando Militar, “não podendo formarem-se grupos nem circular pessoa alguma na cidade sem a necessária autorização das 18 às 5 da manhã”.
O Tenente de Infantaria Raul Duarte Silva, Administrador do Concelho e Presidente da Câmara, ausente na Praia, a tomar parte na conferência de Administradores, enviou o seguinte telegrama, datado de 7 de Junho, que foi tornado público no dia imediato:
“Câmara – Sanvicente – Compreendo – situação – aflitiva – povo – lamentando – desorientação – que produziu – alteração – ordem. – Govêrno – Colónia – conhecedor – situação – renovou – pedido – insistentemente – Govêrno – Central – fim – obter – recursos – abertura – trabalho. – Recomendável – virtude – gravidade – momento – povo – recupere – calma – imediata – aguardando – providências – que – certamente – não demoram. – Sigo – amanhã. – Administrador Concelho”.
Os resultados da manifestação e da militância cívica saldaram-se em um morto, dois feridos, como se disse atrás, prisões e penas para os mais comprometidos na manifestação a serem cumpridas nas ilhas da Boa Vista e Sal, e a deportação de Nhô Ambrôze para Angola. Para os comerciantes foi aplicado, um imposto ad valorem de 3% sobre todas as mercadorias que o comércio de São Vicente importasse, por se ter solidarizado com o povo nos distúrbios.
Face à situação desastrosa que se vivia no arquipélago, decorrente da crise económica mundial e da política do Estado Novo, e como resultado de uma observação atenta de quem se mantinha ligado ao povo e se preocupava com o bem-estar e o progresso do arquipélago, o imperativo militante da elite intelectual era de intervenção cívica, como viria a explicar Baltasar Lopes: “Tínhamos de intervir!”, que assim recorda a situação vivida:
“Daqui, do nosso posto menor de observação, que era a cidade do Mindelo, nós do Grupo tomámos perfeitamente nota da situação geral. Por outro lado, estávamos em nítida posição contestatária perante a orientação política que subjazia à administração da, então, colónia de Cabo Verde, com o seu fascismo de importação e imitação e ignorava ou violava os mais elementares princípios que regem a vida do homem e do cidadão e salvaguardam a liberdade individual. Tal situação despertou toda a capacidade de militância, na medida do possível, do nosso pequeno grupo”.
Para isso, o Grupo precisava de um pretexto para chamar a atenção do Governo e entendeu que teria maior impacto o povo sair à rua numa manifestação. Para que esta seguisse em ordem, pediu-se a Nho Ambroze que saísse com o povo mas que o recolhesse pouco depois para evitar distúrbios.
CAPITÃO AMBRÓSIO, O MITO DE UM POVO
A revolta do povo do Mindelo, que foi um acontecimento histórico datado (07.Junho.1934), ao ser-lhe atribuído uma carga simbólica, transformou-se num mito. Nesta decorrência, Nho Ambroze, o líder dessa revolta, é feito herói. Por outro lado, Gabriel Mariano, ao transformar o carpinteiro de Ribeira Bote num símbolo da resistência, em poema datado de 1956, mitifica-o:
CAPITÃO AMBRÓSIO
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Bandeira Mãos erguidas
Negra bandeira Em força, duras, erguidas
Bandeira negra da fome. Pés marcando a revolta
Em mãos famintas erguidas O povo marcha na rua.
Guiando os passos guiando
Nos olhos livres voando Vai na frente o Ambrósio
Voando livre e luzindo Mulato Ambrósio guiando
Inquieta e livre luzindo Leva nas mãos a bandeira.
Luzindo a negra bandeira Pesada e fria é a noite
Clara bandeira da fome. Injusta e amarga é a fome
Mas vai na frente o Ambrósio
……………………………….
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Foi um minuto. ……………………………….
Veio o vento e passou.
Mulato ambrósio foi preso Capitão Ambrósio chegou!
Julgado e preso o Ambrósio Chegou o Ambrósio chegou!
Preso para longe o Ambrósio
Mandado para longe o Ambrósio.
Longe do povo o Ambrósio.
Mas a banceira ficou.
Morreu e foi enterrado
Mas a bandeira ficou
“Capitão Ambrósio”, in Ladeira Grande. Antologia Poética, 1993

Ok, amigo, fala-se muito do Capitão Ambrósio estes dias por causa da manifestação que se prepara para defender SV. Um símbolo do passado ressuscitado! Foi muito bom esclarecer o misticismo e os erros daqueles que contam um conto acrescentando reticências por trás da história deste homem.
Obrigado, Amigo, pela leitura deste post e pela visita ao “Na Esquina do Tempo”! Os factos históricos devem ser analisados de forma contextualizada. O problema é quando são usados ou branqueados para propósitos outros.
Sou, contudo, a favor do Movimento Monte Cara, desde que para levantar SonCent ! Um abraço e bom domingo!
Olá….
Partilhei o artigo e um excerto do mesmo no espaço Made in Cabo Verde.
Muito bem. aprecio bastante os teus escritos, as tuas notas históricas. mas, tenho uma dúvida: se foi no dia 4 ou 7 de Junho de 1934. Sobre esta Revolta protestando contra a Fome, o Sr. Manuel Nascimento “NéNa” Ramos deixou-nos um legado, através de um Programa sobre “Revolução de Nhô Ambrôze”, com Realização/Produção conjunta de uma equipa da Rádio “Voz de São Vicente, constituída pior JoZÉduardo Fonseca Soares “Tchá”, FernNando Rodrigues Carrilho-“Tabeck”, Carlos Orlando de Oliveira Lima-LóLa e Carlos Alberto de Oliveira Afonso.
O programa constitui uma Relíquia da Programação da então Rádio Voz de São Vicente (herdeira a 9 de Dezembro de 1974 da Rádio Barlavento, Estação de Rádio privada do Grémio Recreativo Mindelo – CR4AC, que transmitia em Ondas Curtas, Banda dos 75 metros, Frequência de 3.960 Kcs
/s). Hoje, um espólio da nossa Estimada Rádio (Nacional) de Cabo Verde. Uma equipa reduzida que produzia com muita qualidade, sem grandes apetrechos tecnológicos.
Abraços, SaNto. DIX!