O Bode que Voltou do Deserto

super_imgde_onde_veio_a_expressao_bode_expiatorio.

Por cá, ninguém se espanta ao ver mais um bode a caminho do deserto. É um ritual bem ensaiado, com direito a aplausos e pedras pelo caminho. Quando a casa treme e a incompetência se instala — como hóspede indesejado —, a solução é sempre a mesma: escolhe-se um animal, de preferência manso, pendura-se-lhe ao pescoço um cartaz com a palavra Culpado e expulsa-se para a poeira.

Curioso é que, por mais bodes que se sacrifiquem, nada muda. A poeira levanta-se, ofusca tudo, e a multidão respira de alívio, convencida de que a responsabilidade tem rosto e chifres. Enquanto isso, os verdadeiros artífices da trapalhada esfregam as mãos, satisfeitos, à espera do próximo espetáculo.

Foi assim ontem, com o técnico que ousou denunciar e trazer para a praça pública o que não se sabia — e, por isso mesmo, acabou transformado no bode do dia, empurrado para o deserto, enquanto os outros se ocultavam na nuvem de pó. É assim hoje. E será amanhã. Porque, por estas bandas, a culpa anda sempre de patas e o deserto nunca fica cheio. Nós, espectadores diligentes, batemos palmas à procissão e continuamos a fingir que estamos livres de pecado.

Enquanto houver bodes, não haverá espelhos. E enquanto não houver espelhos, continuaremos a engordar bodes.

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso – mesmo quando há confettis no ar.

Manuel Brito-Semedo

Deixe um comentário