Honoris Confusa

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Imagem gerada por IA

Em Cabo Verde, os títulos académicos florescem ao ritmo das efemérides e das cerimónias oficiais. E há mais um anunciado: a Universidade do Mindelo prepara-se para atribuir, pela sexta vez em pouco mais de uma década, um Doutoramento Honoris Causa. O destinatário é o ex-Presidente Pedro Pires, em cerimónia presidida pelo actual Chefe de Estado e integrada nas comemorações do cinquentenário da independência nacional. Uma distinção controversa: por ser o rosto do regime de partido único e por se repetir um título já concedido em 2016. Dois Honoris para a mesma Causa.

Em 2016, a Universidade de Cabo Verde reconhecera-lhe o papel na luta anticolonial, na proclamação da independência e na valorização da educação. Voltar agora a distingui-lo, por iniciativa de uma universidade privada e a pretexto de uma efeméride, levanta inevitavelmente sobrancelhas. E a escolha do dia 7 de Julho, a prolongar simbolicamente o 5 de Julho e o histórico discurso que ele próprio proferiu em São Vicente, não deixa de ter a sua ironia.

A Universidade do Mindelo, aliás, tem um historial peculiar nestas matérias. Em 2011, atribuiu o seu primeiro Honoris Causa a Adriano Moreira, antigo Ministro do Ultramar do regime salazarista, precisamente no Dia Internacional dos Direitos Humanos. Provocador? Ou apenas surreal?

Então escrevi que era “uma brincadeira de Carnaval”. E continuo a pensá-lo, sobretudo após a atribuição póstuma do título a Amílcar Cabral, em 2022 — como se a academia tivesse o dom de falar com mortos e distribuir diplomas entre campas.

O risco é óbvio: em vez de verdadeiro reconhecimento de mérito, o Honoris Causa banaliza-se. As distinções multiplicam-se, os critérios evaporam-se. O título torna-se moeda de prestígio institucional, trocada entre conivências e aplausos fáceis.

E não é exclusivo da Universidade do Mindelo. Em 2015, a Universidade de Santiago distinguiu José Maria Neves, então ainda Primeiro-Ministro. Por mais mérito que lhe seja reconhecido, poucos acreditaram na pureza académica do gesto. Mais recentemente, também a Universidade Jean Piaget entrou na dança, distribuindo Honoris a figuras políticas e mediáticas, sem grandes explicações sobre os critérios. É já um padrão, transversal ao sistema universitário: usar o Honoris Causa como estratégia de relações públicas, em vez de verdadeiro reconhecimento académico.

Mais ponderada foi a Universidade de Cabo Verde, que em 2019 distinguiu duas figuras de percurso sólido, no âmbito das comemorações dos 40 anos do curso de formação de professores do ensino secundário: a Professora Maria Luísa Ferro Ribeiro, homenageada a 16 de Novembro, e Carlos Nunes Fernandes dos Reis, a 21 de Dezembro. Ainda assim, a proximidade entre ambas as cerimónias — com apenas cinco semanas de intervalo — deixou no ar a dúvida: planeamento criterioso ou precipitação?

Sem critérios claros, sem exigência académica real, até o mais honroso dos títulos se gasta. Honoris Causa? Ou Honoris Calendaris? O risco é, no fim, acabar num Honoris Regretis.

Cabo Verde precisa de uma academia exigente, séria, capaz de dizer “não” quando é caso disso. Uma academia que saiba distinguir o reconhecimento do favorecimento, o mérito da conveniência. Em países lusófonos, universidades concedem em média 1 a 2 honoris causa por década; em Cabo Verde, já vamos em seis no mesmo período — um feito digno… de um honoris causa. Por isso, talvez seja tempo de decretar uma moratória: dez anos sem banalizar títulos, para limpar a casa, recuperar a dignidade e devolver sentido à honra académica. Não se trata de desmerecer quem já foi distinguido, mas de proteger a seriedade da academia. Façamos desta moratória um ponto de viragem — para que, daqui a dez anos, possamos finalmente rir juntos. Mas, desta vez, de orgulho. Ou pelo menos de alívio.

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

Manuel Brito-Semedo

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