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“Tu não és coitado! – dizia a Mãe Liza – Coitado é filho de gafanhoto!”
E, para quem não conhece a fala completa, a sabedoria popular esclarece: “Coitado é filho de gafanhoto que não tem asas para lhe cobrir as costas” – isto é, quem não tem protecção nem amparo, sendo as asas a metáfora desse abrigo.
A minha Mãe Dona, a Mãe Liza, largava isto assim, seco, sem pedir licença. Topava alguém a lamuriar-se… zás: “Coitado é filho de gafanhoto!” E ficava-se. Ponto final. Quem quisesse, que engolisse.
Hoje, na Praia, o coitadinhismo virou profissão. Viver do “coitado de mim” como quem ostenta medalha.
A culpa? Ah, essa é sempre de “eles”. “Eles” quem? Tanto faz: governo, câmara, vizinho, o tempo. Se a rua está suja e cheia de lixo, culpa “deles”. Se o autocarro não veio, culpa “deles”. Se a criança não aprende, culpa da professora, da escola… E aqui entra a cereja no topo do bolo: ajusta-se a culpa ou a desculpa ao grau de fanatismo pelo partido. Se é o nosso no poder, tudo tem explicação – “a herança foi pesada”, “o orçamento é curto”, “a culpa é da oposição”. Se é o outro, aí já não há piedade: até a chuva fora de época passa a ser prova de má governação.
E, como não bastasse, há sempre um teatrinho de conspiração no ar. É só parar na esquina e ouvir:
– “Há alguém contra nós, pah…”
– “Há olho gordo. Inveja pura.”
– “Forças ocultas, broda! Forças ocultas…”
Cada um acrescenta um detalhe mais dramático que o anterior, como se estivéssemos todos num folhetim de rádio. É um enredo perfeito: preguiça vira resistência, incompetência vira perseguição. Não há falha, há sabotagem; não há erro, há armadilha. E assim o coitadismo veste-se de herói injustiçado.
E aqui encaixa outra pérola: “Deixa o coitado viver da sua maneira / Deixa as pessoas pensar da sua maneira / Deixa o cabo-verdiano ir de sua maneira” | Dexa koitadu vive di si manera / Dexa gentis pensa di ses manera, han / Dexa Kauberdi bai di si manera / Oi ses manera, oi ses manera |, como no finaçon cantado por Zeca di Nha Reinalda (1992). E qual é a maneira? Vítima de carreira. Mestre da desculpa pronta: “ninguém ajuda”, “os recursos são poucos”, “as condições não permitem”. O álibi perfeito para não mexer um dedo.
O pior? Este teatro custa caro. Enquanto repetimos “coitadinho de mim”, deixamos de ser donos da cidade e viramos figurantes resignados. E a cidade, que podia muito mais, não é. Não por culpa de “eles” – mas por falta de coragem para levantar a cabeça e fazer.
E se, ao ler isto, pensou “está a falar dos outros, não de mim”… parabéns: acaba de provar o ponto. Filho de gafanhoto.
P.S. – Quase vejo a Mãe Liza a mandar um cuspo de siré para longe como quem afasta mau agouro.
– “Filho, escreves isso tudo e no fim ainda vão dizer que estás a falar mal deles… coitados!”
E logo a seguir, com o sorriso maroto:
– “Tu não és coitado! Coitado é filho de gafanhoto!”
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A expressão “filho de gafanhoto” encontra registo literário em Chiquinho (1947), de Baltasar Lopes, onde a personagem Chico Zepa afirma (pg. 231-232):
“Pobre é como filho de gafanhoto. Nasce com as asas verdes, mas depois vira cinzento, cor de nada…”.
Provavelmente colhida da oralidade cabo-verdiana, a imagem – em que o verde simboliza a promessa de vitalidade e o cinzento o desgaste e o desamparo – fixou-se no imaginário cultural e, com o tempo, gerou variações, incluindo a que hoje se usa para ironizar o chamado “coitadismo”..
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo