Estátua de Eugénio Tavares, Nova Sintra, Brava, 2006
Os versos, que adiante se seguem, são uma eloquente promessa. Os leitores julgarão: Escreveu-os um rapaz de 15 anos quando muito, possuindo apenas o a b c da instrução primária e vivendo numa das ilhas de Cabo Verde onde escasseiam esses elementos que, tanta vez, em outras partes do mundo civilizado, iluminam uma inteligência, dando-lhe o que a pequenez da escola lhe recusou: o convívio com homens ilustres, a frequência ou ainda o leve contacto com uma sociedade culta e erudita.
Eugénio de Paula Tavares é um talento que se perde, ou que não medra como deveria, no acanhado ambiente do viver poético sim, porém demasiadamente aldeão, da ilha Brava.
Órfão de pai e mãe desde muito criança, tomou-o para casa sua madrinha, que lhe tem servido sempre de segunda mãe, dispensando-lhe todos os afagos e carícias que os pais lhe prodigalizariam. É à sua protectora que ele dedica os versos, dizendo, em expressão familiar a badinha, porque assim se habituo a chamar a madrinha desde balbuciar infantil.
São, pois, uma eloquente promessa, repito, os seguintes versos. Há neles algumas imperfeições e durezas, que se poderiam tirar sem ferir o pensamento, mas se a forma peca aqui e ali, a ideia é bem conduzida e revela um poeta se se lhe proporcionarem condições para o estudo e quiser aproveitá-las:
A BADINHA
Um dia caira em teu níveo seio
desmaiado botão,
que duma linda roseira arrancara
violento tufão.
As tuas carícias deram-lhe a vida,
e o anélito teu
foi o bálsamo que deu força, alento
ao débil peito seu!
E a carmínea bonina transformou-se
rapidamente em flor,
que se esforça por derramar a jorros
reconhecido odor!
O imaculado anjo da caridade,
que do Olimpo desceu,
és tu! E a flor, que, meiga e carinhosa,
embalaste, sou eu!
– Eugénio de Paula Tavares
Fui exagerado na apreciação?

Autor: Luis Medina e Vasconcelos (Cidade da Praia – Cabo Verde)
In Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, 1885; Páginas: 423-424

