
O 13 de Janeiro foi cancelado.
Ou melhor: não foi.
A Câmara Municipal da Praia decidiu que a Corrida da Liberdade não fazia parte das suas prioridades. Questões de gasto público, explicou-se. Prudência. Escuta da população. Gestão responsável. Tudo muito razoável.
Só houve um pequeno detalhe:
a população apareceu na mesma.
Porque, entretanto, o Governo assumiu a corrida, organizou-a no próprio 13 de Janeiro e apresentou depois um balanço “extremamente positivo”, com adesão massiva. Pessoas a correr, a caminhar, a participar. Liberdade em movimento. Sem dramatismos. Sem excesso de discurso.
Resultado curioso:
a corrida que tinha sido cancelada… aconteceu.
E a que se anunciava como alternativa simbólica ficou para depois.
Não se trata aqui de disputa institucional. Trata-se de algo mais simples – e mais incómodo:
quem decide o calendário da memória?
A liberdade, ao que parece, não coube na agenda municipal. Mas coube na rua. Coube nas pernas das pessoas. Coube na vontade de estar presente numa data que não se transfere por despacho nem se adia por prudência orçamental.
Ironia das ironias:
tentou-se poupar na liberdade
e acabou-se por investir tempo a explicá-la.
Fica a lição, sem necessidade de medalhas:
há datas que se organizam,
há datas que se cancelam,
e há datas que, simplesmente, se impõem.
O 13 de Janeiro é uma delas.
Corre-se – com ou sem autorização.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo