Recordando a minha infância e as histórias tradicionais que as criadas dos meus avós me contavam, passei mais tarde a contá-las aos meus filhos. Um deles já pai, também me dizia, ‘Mamã, conta à minha filha aquelas histórias que nos deleitavam quando éramos pequenos.
Daí que comecei a relembrar muitas dessas histórias e, a pouco e pouco, fui passando-as para o papel. Pena é que algumas têm música ou cânticos mas não me é possível transcrever a música. Algumas são em crioulo de Santiago e outras em crioulo de Barlavento. Engraçada é a crença das contadeiras de histórias de então. A nossa cozinheira, Nha Piti era o nome dela, dizia que não se contavam histórias antes do pôr-do-sol. Porque se ficavam com os olhos pelados”.
Em criança, acreditava e era com uma impaciência que eu ficava observando o pôr-do-sol atrás do vulcão do Fogo que eu via à distância onde morava com o meu pai, em Galo-Canta. Penso que esse nome talvez venha dos galos que sempre cantavam aí de madrugada. Algumas histórias no final do livro são da minha autoria, tais como ‘Os Ovinhos de Páscoa’, ‘O Cãozinho que Viajou para o Mundo dos Passarinhos’, ‘Vida de Gatos’ e ‘A Tartaruguinha Verde’. Na minha memória ficaram ainda gravadas cantigas de algumas dessas histórias.
A minha avó materna e as minhas tias também me contavam histórias, e como eu adorava.
Espero que os meus pequenos leitores também venham a gostar dessas histórias oriundas dos povos destas ilhas, os tradicionais ti Lobo e Chibinho, os Príncipes e Princesas, o Senhor Rei, as velhas feiticeiras, a Ti Ganga, etc.
– Ivone Aida, “Prólogo”
Título: Mam Bia tita contá estória na criol
Autor: Ivone Aida
Edição: Edição da Autora
Ano de Edição: S. Vicente, 2009


Bom dia e uma boa semana e para que o seja, este post começa a semana em destaque Na Rede na homepage do SAPO Cabo Verde.
Felicito a Ivone Aida por esta sua obra, que fala de nós mais do que à primeira vista pode parecer. Decerto que qualquer cabo-verdiano das gerações mais velhas apreciará ter na sua estante este livro. E os das gerações mais novas têm de roubar um pouco de tempo ao computador, ao Ipad e ao Ipod para ouvirem a Mam Bia. Nenhum instrumento moderno de recreação consegue realizar a expectativ a que a Mam Bia punha nos nossos palpitantes corações… logo que Sol ta cambá na horizonte.
Um dos melhores tempos da minha existência ouvindo estórias e mais estórias que os mais velhos nos contavam, às vezes, como fazia o meu irmão Cândido, em troca de umas colheradas de cachupa ou uma guloseima qualquer … em noites enluaradas, como que hipnotizadas sentava-mos na calçada da nossa casa, em Chã de Cemitério, sedentes pelo final, tremendo ou não de medo consoante o conto com um entusiasmo simplesmente magnético. Ó tempo, volta para trás …