O Arco da Infância

 

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Imagem gerada pela IA

 

 

O poeta português Manuel Alegre escreveu em Alma (1995): “Toda a vida: não há flecha que não tenha o arco da infância.” A imagem é certeira. Aos setenta anos, percebe-se melhor essa verdade: quanto mais longe vai a flecha, mais claro se torna o arco que a lançou. A infância não é apenas memória; é estrutura de carácter e de valores.

 

Nas ilhas, esse arco foi forjado em condições de escassez, mas também de engenho. Brincava-se com o que havia: meias velhas transformadas em bolas, latas em carrinhos, paus em cavalos de corrida. Nessas invenções, aprendia-se a partilhar, a negociar conflitos, a respeitar regras mínimas de convivência. Eram exercícios de cidadania em estado puro, sem manuais nem teorias, mas com impacto duradouro.

 

As noites, iluminadas por candeeiros a petróleo, eram espaços de transmissão cultural. Histórias de capotonas, catchorronas ou gongons faziam parte de uma pedagogia subtil: ensinavam a reconhecer limites, a lidar com o medo e a aceitar o mistério como parte da vida. O essencial estava ali: aprender a escutar, a imaginar, a respeitar. Hoje percebe-se que essas narrativas eram, ao mesmo tempo, entretenimento e formação ética.

 

O arco da infância tinha também a marca do trabalho das mulheres. Lavadeiras, costureiras, engomadeiras: profissões duras, quase invisíveis, mas que sustentaram famílias e comunidades inteiras. Cada gesto repetido junto ao tanque ou ao fogareiro era um acto de resiliência e de dignidade. Ao seu modo, essas mulheres transmitiam valores de disciplina, coragem e perseverança que se inscreveram na vida colectiva.

 

A vizinhança completava essa moldura. Partilhar o pouco, emprestar água, abrir a porta a quem precisasse eram gestos quotidianos que, somados, criavam confiança e laços sólidos. Essa rede de proximidade foi talvez o maior património social da infância cabo-verdiana. Mais do que nostalgia, é um ensinamento: a coesão de uma sociedade mede-se pela força dos seus vínculos informais.

 

A música, por sua vez, não era apenas companhia: era linguagem comum. Morna, coladeira, batuque – tudo circulava de casa em casa, dispensando palco ou partitura. Essa vivência musical quotidiana ajudava a construir identidade e a reforçar pertença. O arco da infância era, também, sonoro.

 

As flechas lançadas desse arco seguiram caminhos diferentes. Uns ficaram, outros partiram para a diáspora – Lisboa, Rotterdam, Boston, Dakar. Mas em todos permaneceu o impulso inicial. É por isso que, mesmo a milhares de quilómetros, um sabor ou uma melodia despertam pertença imediata. Não se trata apenas de recordação, mas de continuidade de identidade.

 

Hoje, ao olhar esse percurso, não basta evocar o passado. É necessário compreender que a infância é sempre uma preparação para o futuro. Aquelas lições de partilha, imaginação, solidariedade e música continuam a ser necessárias, mas exigem tradução para o presente. Numa era de individualismo e de fragmentação social, a herança desse arco deve ser recriada em novas condições.

 

Manuel Alegre tinha razão: nenhuma flecha se solta sem o arco que a lançou. Mas é igualmente verdade que o arco só tem sentido se continuar a lançar flechas. Cabe às novas gerações renovar os gestos de solidariedade, recriar a música que une e inventar formas de comunidade capazes de responder aos desafios do século XXI. A infância é raiz, mas é também impulso. É essa força invisível que continua a dar direcção e sentido ao voo da vida.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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