“Santo Antão. Busca Doutra Trilha”, de Silvino de Oliveira Lima

 

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Silvino de Oliveira Lima, santantonense, engenheiro civil, que foi ministro no Governo da 1.ª República, acaba de editar um livro onde apresenta a sua visão pessoal sobre a melhor forma de aproveitar as potencialidades da sua ilha, em suas múltiplas valências, que não apenas naquilo que se pensa ser a sua vocação natural,agricultura.

 

O Esquina do Tempo dá a conhecer  o ‘Texto para as Badanas’, do livro, e o ‘Prefácio’, de Adriano Miranda Lima, deste Santo Antão. Busca Doutra Trilha, e recomenda a sua “leitura atenta sobre a visão aqui desenvolvida para melhor responder à construção do futuro em Santo Antão”.

 

TEXTO PARA AS BADANAS

 

Decorridas as quatro primeiras décadas de história de país soberano, o percurso feito já dá para perceber quanto foi compensadora a mudança de regime tendo em conta os enormes progressos alcançados nos vários campos de actividade, desde o económico ao social. Todas as ilhas com as suas diferenças, mas todas revelando progresso, comparando a situação inicial com o quadro oferecido pela situação actual. Podia-se ter ido mais além? Certamente que podia. Mas exigir mais poderia incorrer na injustiça de ignorar a forte inércia que foi necessário vencer para que se começasse a experimentar as vantagens trazidas pelo novo regime que, progressivamente, foram crescendo à medida da experiência administrativa que foi sendo adquirida e a socialização do conhecimento que, ano a ano, foi aumentando de forma espectacular.

 

 

Contudo, agora que a mesma inércia já pouco conta e é exponencial o capital de experiência e conhecimentos adquiridos, da mesma forma como, orgulhosamente, se sente os progressos já alcançados, também, humildemente, se deve colocar esta questão: estará sendo feito tudo ao alcance para levar mais alto o nível das realizações, ou está-se a atropelar o progresso com erros que podem ser evitados? Questão legítima, porque agora a inércia a vencer é outra surgindo num quadro social que evolui rapidamente levantando problemas sérios de gestão para compatibilizá-lo com as necessidades casuísticas do desenvolvimento. E neste caso, como estará cada ilha se comportando para dar resposta aos desafios colocados nesse novo quadro?

 

Aqui o foco vai estar inteiramente centrado na ilha de Santo Antão que, não obstante a condição de segunda em extensão territorial e terceira em população, está colada à cauda do crescimento por capita com o pior rácio do contexto nacional, quando isso sequer é uma surpresa. E explica-se por várias situações delicadas, como o processo de desenvolvimento baseado na exclusiva exploração dos aquíferos naturais que põe numa relação inversa os avanços na melhoria das condições de vida das comunidades com a degradação das áreas de regadio, denunciando um desenvolvimento insustentável que pode perigar de rotura o estado do meio ambiente. Também, entre muitas outras situações, pode-se ainda relevar a questão da segurança, já que a maior concentração de actividades se encontra numa região muito vulnerável a eventos naturais violentos. O maior desse tipo ocorreu há 65 anos, muito tempo para induzir nas pessoas que aí é irrelevante essa questão, o que complica, sobretudo para gerir a contenção de iniciativas ousadas no domínio da utilização de solos para fins residenciais. Um grande problema? Obviamente que é, porque as ameaças globais que derivam das alterações climáticas tornam imprevisível o pico a alcançar no próximo evento.

 

Recomenda-se então leitura atenta sobre a visão aqui desenvolvida para melhor responder à construção do futuro em Santo Antão.

 

– Autor

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PREFÁCIO

 

Apesar de eu ser natural de São Vicente, ou talvez por isso mesmo, o autor desta notável publicação encarregou-me de escrever o seu prefácio, alegando que “o meu coração bate forte por Santo Antão”. De facto, o meu coração bate forte, fortíssimo, pela ilha onde nasceu o meu pai e dois dos meus avós, o paterno e a materna, mas seria injusto que o chamamento umbilical fosse a única razão do meu sentimento. É que Santo Antão seduz pelos seus próprios méritos, pelos seus encantos naturais, pela sua beleza imponente, a que ninguém fica indiferente, cabo-verdiano ou visitante estrangeiro. Dir-se-á que a ilha se formou num feliz acaso em que as entranhas da terra aplacaram a sua raiva ígnea para permitir que o caos e a paixão escrevessem, em amoroso dueto, um poema que enche os olhos e cativa a alma. E o poema cósmico é exactamente o cartão-de-visita da ilha, esculpido na pedra com linhas a um tempo duras e majestáticas, suaves e enigmáticas, amorosas e enleantes.

Os seres que povoaram a ilha não demoraram a entrar em sintonia com a natureza envolvente, a sentir o ímpeto da sua força telúrica e o sopro do seu mistério. De rija têmpera e coração generoso, o homem de Santo Antão é de uma singularidade única na terra cabo-verdiana, porventura o intérprete mais perfeito do sentimento que dá pelo nome de morabeza. Assim, a terra e as suas gentes são, pois, um compósito de virtudes integradas que tudo tem para que este torrão cabo-verdiano possa auspiciar um futuro mais próspero e à altura dos seus pergaminhos.

Este livro consiste num exaustivo, abrangente e bem organizado ensaio sobre o que Santo Antão representa, sobre o que no passado lhe frustrou a caminhada para o futuro, e sobre o que é possível empreender para vencer os escolhos da sua trajectória e lançar as linhas estruturantes de uma outra arquitectura do futuro. O autor utiliza na sua exposição uma linguagem de grande requinte literário, com pendor de poesia quando revisita a história da ilha e se enternece com a sua paisagem sublime. Mas a mesma linguagem de roupagem lírica logo se transmuda, sem contudo perder sua musicalidade, em verbo mais rectilíneo e incisivo de objectividade quando analisa a problemática da ilha e aponta um conjunto de soluções para que ela consiga atingir um patamar de desenvolvimento mais consentâneo com as suas potencialidades. Ele nada deixa ao acaso na sua abordagem, e não se coíbe de denunciar os atavismos e erros do passado que impediram Santo Antão de ser peça relevante no tabuleiro em que se jogou o futuro colectivo, quer enquanto colónia quer já no regime soberano. É com esta resolução que alerta para a necessidade de um arrepiar de caminho e convoca todas as pulsões anímicas para o trabalho de mudar a fisionomia da ilha.

Conforme o que é delineado nestas páginas, elevar Santo Antão ao estatuto que merece é tarefa meritória e justa, mas de manifesta exigência e complexidade, porque implica uma autêntica reconfiguração do espaço geográfico, com projecção e diversificação territorial da sua economia a uma escala sem precedentes, acarretando em simultâneo uma importante alteração do dispositivo autárquico. Se tudo isto representa em linhas gerais o eixo da concepção, a roda da respectiva engrenagem, condição imprescindível para que tudo se mova, só poderá configurar-se nas populações a transferir internamente ou a regressar à sua ilha de nascimento mediante o incentivo de novos desafios. Ou seja, o querer das gentes da terra será tão determinante como a própria alavanca financeira.

Ciente de que foram os desequilíbrios estruturais e demográficos que acentuaram o empobrecimento da ilha, o autor entende que, “lançadas as bases para a arquitectura de uma nova e efectiva economia, Santo Antão deixará então de ser um grande problema e passará a constituir, efectivamente, um dos pilares mais consistentes e promissores da economia nacional”. É um facto. Sem dúvida que estamos perante um desafio que ao mesmo tempo estimula e enobrece quem nele se engaje. De resto, é impossível ficar indiferente a esta pérola do pensamento intelectual que o ilustre santantonense nos oferece.

Poderá haver quem considere uma utopia o que aqui se preconiza, dada a grandeza da obra e os custos financeiros que envolve, além do efeito pernicioso de uma inércia que se instalou nos espíritos nas últimas décadas, corroendo o ânimo e gerando o conformismo. Mas o autor confia em que o efeito conjugado das novas tecnologias, a maior qualificação das actuais gerações e os impulsos da modernidade, possa ditar a diferença entre o sonho realizável e a mera utopia. Bom filho da terra, entendeu dever contribuir com este precioso legado de ideias para o futuro da sua ilha, nem que se tenha de procurar “o financiamento à luz do facho”. Sem dúvida que o conceito e a metodologia aqui expressos são por si só um poderoso aliciante para mobilizar as vontades e atrair o investimento.

Cá por mim, o meu estimado primo mete numa garrafa o mapa de um tesouro e lança-a ao mar do tempo, na esperança de que alguém a recolha e lhe dê o devido uso. Comungo inteiramente da sua fé porque acredito que a geografia e o homem podem, em sintonia, conjugar bem a palavra do futuro para tornar grande a felicidade dos cabo-verdianos.

 

– Adriano Miranda Lima

 

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