‘E agora José?’, Poema de Drummond de Andrade pela Perda do Dr. França

 

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 Foto Maria Catela, Praia, Julho.2010

 

 

Amiga Fátima Bettencourt, cheguei agorinhassim do Cemitério da Várzea aonde me fui despedir do nosso Dr. Arnaldo França.

 

Triste e vazio, ocorre-me o poema “José”, do brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Então, e agora? O último (?) baluarte da nossa cultura partiu, a mediocridade nos sorri faceira … E agora?

 

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Foto Quim Macedo, Praia, Julho.2010

 

JOSÉ

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

 

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

 

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio – e agora?

 

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

 

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

 

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

  

Carlos Drummond de Andrade, “José e outro”

 

 

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