MUDANÇA
C’ bocês
Sempre c’ bocês
nesse luta de tude dia
nesse sperança de tude hora
rise verde e fartura
midje tchuva e sabura
C’ bocês
nesse terra de silencie
nesse tochore sem pecóde
trabói suor e trabói
riqueza de terra ê pa quem?
C’ bocês
sempre c’ bocês
sol quente na cabeça
tchuva de riba de corpe
nôs dstine ê sô um:
vra nôs terra note terra
– Ovídio Martins
in Não Vou para Pasárgada, 1998
Ovídio de Sousa Martins
(S. Vicente, 17 de Setembro de 1928 – 29 de Abril de 1999)


Conheço a poesia do Ovídio desde os princípios dos anos sessenta. Mas foi em Paris, talvez em 1969 ou 1970 que travámos conhecimento. Já não ouvia quase nada: amigos nossos fizeram-no visitar os maiores especialistas da França, mas sem qualquer resultado. Um verdadeiro escritor ao serviço da luta de libertação de Cabo Verde: levantava-se cedo e ia comprar o seu jornal comunista «l’Humanité» e depois submetia-se à árdua função da escrita. Escrevia muitos poemas, tanto em crioulo como em português, exercitava-se no conto e crónicas. Os poemas vieram a ser publicados na Holanda no livro «Cem poemas – Não vou para a Pasargade». É de se estranhar que sendo muitos dos poemas dedicados a amigos e camaradas, na edição da Holanda os nomes dessas pessoas desapareceram, como foi o caso do poema «Não Vou para à Pasargade» que teria sido dedicado ao poeta João Vário na primeira edição do poema em Portugal, nos princípios dos anos sessenta. Nunca o Ovídio fez caso desta expressão «Não Vou para à Pasargade», preferindo mesmo dizer que foi uma brincadeira de café com o Vário a respeito da sua nova poesia. E todos já sabem do destino desta frase que levou mesmo o Dr. Baltasar a reagir num artigo publicado na revista Ponto e Vírgula. De Paris foi a Conacry onde deve ter passado uns cinco meses e, devido às dificuldades de viver num lugar onde faltava a imprensa escrita, regressou de novo a Portugal, via Paris. Somente em 1963 voltou a Roterdão onde colaborou no Nôs Vida. Admirador dos escritores russos, como Gorky, e também de António Aurélio Gonçalves, sonhava em escrever contos sobre a realidade mindelense. Publicou na colecção angolana Embondeiro o conto Tchutchinha.
A data da morte do Ovídio não merecia passar tão despercebida em Cabo Verde e em especial em São Vicente que tão bem soube poetizar os seus homens e mulheres, lutadores para a vida, catando pão duramente para a sua dignidade.
Foi também músico (pianista) e não se sabe se deixou algumas composições.
Hoje em Lisboa a Associação dos antigos alunos do Liceu Gil Eanes presta-lhe uma homenagem de gratidão.
A Câmara Municipal de São Vicente poderia dar o seu nome a uma praça ou a uma rua.
Obrigado Lelela de Xanda por nos teres lembrado desta data simbólica.
Caboverdianamente,
<o:p>
Luiz Silva
Obrigado, Amigo e Colaborador Luiz Silva, por este testemunho, tão a propósito! Se o Poeta Ovídio Martins estivesse vivo, faria hoje 83 anos! O “Na Esquina” faz-lhe esta singela homenagem! Braça e votos de bom domingo!
É-me muito grato ver aqui evocado nosso poeta Ovídio Martins, por obra e graça do Brito Semedo, logo secundada pelo excelente e interessante comentário de Luiz Silva. O Luiz conta aqui factos sobre a vida pessoal do poeta que não serão do conhecimento de toda a gente, daí a grande pertinência da sua intervenção neste post.
De entre tudo o que li, despertou-me particular atenção a observação de que a expressão “Não vou para a Pasárgada” não passou de uma brincadeira de café com o João Vário. É que eu pensava, assim como certamente muita gente, que essa expressão continha verdadeiramente uma assumida e consciente carga ideológica, significando uma oposição ao evasionismo de Manuel Bandeira e, também, de Baltasar Lopes. Ou ela terá nascido, sim, de uma casual brincadeira que, entretanto, depois fermentou intelectualmente e frutificou como mensagem poética, como sabemos, ou julgamos saber?
Seria de interesse que o Luiz esclarecesse melhor o que ouviu ao poeta.
Nunca vi em pessoa o Ovídio Martins e gostaria de o ter conhecido.
Eis outro nome que não entendo não esteja na toponímia da nossa cidade.
Comentário em 2 partes.
Primeira parte :
O João Vário, que já tinha rejeitado a sua poesia escrita em Cabo Verde (Horas sem carne, Coimbra 1958) e que anunciava um ciclo poético chamado « Exemplos » (hoje de renome universal e que precisa ser conhecido pelos caboverdianos), partindo de uma leitura dos grandes poetas e filosófos universais, dizia que sobre secas, fomes, emigração, o Jorge Barbosa, o Baltasar Lopes e o Manuel Lopes, já tinham dito tudo e que ninguém poderia escrever melhor e não valia a pena continuar a copiá-los. De modo que havia um certo insulto ao poeta Ovídio Martins que lhe respondeu também com uma frase, escrita numa toalha de papel num restaurante onde almoçavam.
O Ovídio ao escrever « Eu não vou para a pasárgada », se referia aos jardins da Pasargada, situado na Pérsia, segundo a mitologia grega, para onde iam os eleitos de Deus. O Ovídio, que considerava a proposta poética de João Vário bastante elitista, queria dizer que rejeitava qualquer convite ao paraíso onde os outros (o povo) ficariam excluídos. Ora, Manuel Bandeira ao referir-se à Pasargada fala de um lugar mítico onde se tem todas as liberdades enquanto que Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) fala da construção da Pasargada, dizendo « Oh Deus, nao dê o visto para a Pasargada àquele que não pôs as mãos na construção do Templo ». Ora a pasárgada, tanto de Manuel Bandeira que fala da liberdade, e a pasárgada de Osvaldo Alcântara que propõe a construção de Cabo Verde são diferentes da pasárgada a que se refere o Ovídio. Foi o Onésimo Silveira que, ao escrever o ensaio político e literário « Consciencialização na Literatura Caboverdiana », acendeu a fogueira ao terminar o ensaio, citando alguns jovens escritores, que aliás não convenceram, o seguinte : esta é a geração que não vai para a Pasárgada ». Isso custou muitas críticas aos Claridosos que ao mesmo tempo não pouparam nem o Ovídio e nem o Onésimo, sendo este o responsável por uma certa imagem negativa da Claridade. Tanto Baltasar Lopes como Manuel Lopes sairam em defesa da Claridade e mesmo autores não claridosos como Arnaldo França e em especial Gabriel Mariano, defenderam corajosamente a obra dos Claridosos. Em 1986 o próprio Presidente da República, Aristides Pereira, no cinquentenário da Claridade, disse que a Claridade teria sido a Independência cultural de Cabo Verde, fechando assim un ciclo de conflitos sobre a autencidade ou não dos escritores Claridosos.
Segunda parte:
Como o Ovídio dizia sempre, e creio ter escrito que nunca escreveu nada contra os Claridosos, já é tempo de esclarecermos esta situação e fechar este parêntese na vida do poeta, para o repouso das almas dos Claridosos e do Ovídio, homem de fino trato, incapaz de ofender os amigos, quanto mais o seu antigo professor Baltasar Lopes.
Uma rua, meu povo, para o poeta Ovídio Martins, o Vidinha para o Gabriel Mariano, um outro que fez muito para a cultura caboverdiana e em especial para o teatro mindelense e que precisa de ser homenageado.
Luiz Silva
P.S. no meu primeiro comentário enganei-me ao dizer que o Ovídio voltou à Holanda em 1963, quando eu devia escrever « 1973 ». As minhas desculpas.
Menino, morava perto da Familia Martins e, mais tarde, fui condiscipulo do Fausto. Quando deixei Mindelo ainda nada sabia da obra do Ovidio até o dia em que cai na homenagem pôstuma que fez a um nosso vizinho. Este, saiu clandestinamente para a Argentina. Como não tinha ninguém que responsabilizasse por ele em Buenos Aires, foi recambiado. Mas nunca chegou. Na Baia, quando o barco saia, atirou-se ao mar e foi (segundo constou)colhido pela élice.
Ovidio imortalizou-o com “In Memorium Belarmino de Nha Talefe”.
Caro Val:
O Ovidio me falou com muita magoa do Belarmino de Nhô Talef, seu amigo de infância, um grande jogador de pião, que morreu no mar da Plata ao tentar atravessar o rio para a Argentina. Este poema ja’ aparece na priemria ediçao da poesia de Ovido Martins – Os Flagelados do Vente Leste. Na leitura da nossa emigraçao poucos se teem falado daqueles que morreram em procura de Cabo Verde, na feliz expressao de Baltasar Lopes.
Boa tarde e votos de um bom domingo 🙂
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Obrigado ao Luiz por corroborar o que disse acima sobre o Belarmino que tratávamos , com admiração, de Sportiva “ pelo seu jeito.
Lembro-me dele, magrim , bnitim , com um bigodinho, fininho, cinéfilo, trividim ” (no bom sentido) como podia ser um menino dos lados de Praça Nova.
Intervenções destas são necessárias porque construtivas. Servem para demonstrar que cabe-os trazer à tona coisas de nôs terra – Cabo Verde -que devem ser relembradas e/ou dadas a conhecer.
Fico ainda imensamente satisfeito porque é algo mais que Cleonice não dirà ser mentira
Transcrevo aqui o poema em referência, “In memoriam de belarmino de nhô talef “: Na hora derradeira // Amigo // melhor vislumbrarei a intenção oculta de teus passos // e a grandeza da tua estrela // superará todos os brilhos possíveis // Na hora derradeira // – ó companheiro desaparecido! – // escutarei o lamento das ondas // que sobre ti se fecharam // quando tentavas escapar à morte // (Que no caminho sem regresso // – última etapa da tua estrada de angústias – // não te foi permitido fixar os pés // na terra da promissão) // Na hora derradeira // – ó irmão sepultado nos mares da Argentina! – // pedirei um lugarzinho ao pé de ti // para ouvir da tua boca // envoltas em névoa // as palavras de desespero // pela luta travada em vão
“Nunca o Ovídio fez caso desta expressão «Não Vou para à Pasargade», preferindo mesmo dizer que foi uma brincadeira de café com o Vário a respeito da sua nova poesia.”
Luiz, amigo, foram estas tuas palavras acima transcritas que suscitaram a interpelação contida no meu comentário, face à dúvida que me surgiu. Não foi qualquer falta de esclarecimento a respeito mitologia poética da Pasárgada, sobre qual acabaste por discorrer, e bem, em novo comentário, relembrando a polémica que envolveu os escritores mencionados. De resto, são sempre bem vindas estas tuas intervenções, dado que nem toda a gente anda familiarizada com as coisas da literatura, sobretudo nestes tempos em que que sobra pouco tempo para a leitura. As tuas palavras, aqui como noutros espaços de intervenção, têm o valor de muita leitura lida e de muita experiência pessoal vivida.
Todavia, perdoar-me-ás se te disser que não me esclareceste sobre a dúvida pontual subjacente àquela tua afirmação, devendo eu, no entanto, encerrar o assunto e concluir, com as tuas úteis explicações, que não passou de um fait divers o desabafo extemporâneo do Ovídio Martins em sua conversa de Café com o Vário. Depreende-se, pois, que o que se tem de relevar é a intencionalidade da poética de Ovídio no que concerne ao evasionismo associado ao mito da Pasárgada, ao inverter o seu sentido mensagístico.
Um grande abraço.