Esplanada da Livraria Pedro Cardoso
“Ex.mas Senhoras,
Meus Senhores:
Anunciei que vinha aqui hoje fazer uma conferência. Não deveis, pois, esperar um discurso. Faltam-me além do mais, os requisitos indispensáveis ao orador.
A conferência pertence, é certo, ao género oratório; tem também por objecto o útil e o agradável; destina-se igualmente a persuadir por via da palavra, com a diferença: – o discurso profere-se e a conferência lê-se.
A minha não se propõe a resolução de altos problemas a rasgos de retórica; reduz-se às humildes proporções de uma ligeira e despretensiosa palestra”.
Mário Silva, Presidente da Fundação Direito e Justiça, dona da Livraria, e Brito-Semedo, Conferencista
Foi assim que Pedro Monteiro Cardoso, nosso homenageado e patrono desta livraria abriu a sua conferência em defesa da língua nativa de Cabo Verde, em Dezembro de 1933, na Praia, no Cine-Teatro Virgínia Vitorino.
Desaparecido há cerca de 70 anos, Pedro Cardoso, esse grande Homem, pode hoje ser invocado e o seu retrato de intelectual esboçado, ainda que em traços breves, devido à sua escrita – os seus textos jornalísticos (especialmente os publicados no A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919) e no O Manduco (Fogo, 1923-1924), as suas conferências (proferidas no Cine-Teatro Virgínia Vitorino) e os seus textos poéticos e ensaísticos (das Primícias, de 1908, a Lírios e Cravos, de 1951, edição póstuma, passando pelo Folclore Caboverdeano (1933). Textos esses que se cruzam e se completam, estabelecendo a ligação entre a objectividade do discurso jornalístico e a subjectividade do discurso literário, dão-nos a visão do seu autor sobre a problemática social e cultural do seu tempo.
Pedro Monteiro Cardoso nasceu na ilha do Fogo a 13 de Setembro de 1883 e faleceu na Praia, a 29 de Outubro de 1942, com 59 anos. Foi funcionário aduaneiro e recebedor da Fazenda. No campo da política e do jornalismo assumiu-se como republicano e socialista, melhor dito, comunista. Haja em vista o poema “Unidos Avante” (1913) de exaltação a Marx, dedicado aos operários mindelenses:
Operários! diz Marx, o Mestre venerando, Lutai! que alcançareis a palma da vitória,
que a vossa redenção tem de ser conquistada mas tendo por reduto a vossa associação!
por vós somente; não brandindo lança ou espada, Pois, quando o povo diz que a força fá-la a união,
mas unindo-vos e vos associando!… alta verdade afirma à plena luz da História.
Ora, escutai-lhe a voz austera de vidente Contai-vos se podeis… vós sois a Maioria.
e pondo-lhe em efeito o aviso sapiente. Então, porque domina a infanda tirania?!
Foi defensor do continente negro e da dignificação do homem africano, como se pode constactar dos poemas “Pró África” (1911)
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Moçambique, mais Angola, Mais justiça e liberdade;
Cabo Verde e São Thomé, e, nos que as veem governar,
á uma imploram a esmola mais sciencia e probidade:
do bem que lhes devido é. eis quanto andam a implorar!…
Já não querem portarias Olhae, guardae, portuguezes,
e infames leis draconianas. o patrimonio sagrado,
Desejam menos razzias da fortuna entre os revezes
E que entre a luz nas cabanas. pelos avós conservado!
e “Ode a África” (1922)
Africa minha, das Esphinges berço, Sôbre o teu corpo, ó meu leão dormente,
Já foste grande, poderosa e livre; Vieram bárbaras nações pousar;
Já sob os golpes do teu gladio ingente E, quais harpias truculentas, feras,
Tremeu o Tibre Nele cevar…
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Sim, foste grande, dominaste o mundo;
Mas hoje jazes sem poder sem nada.
E ao ferreo jugo das potências gemes
Maniatada.
A militância de Pedro Cardoso levou-o a adoptar o nome Afro, com o qual assinava as suas crónicas em A Voz de Cabo Verde e baptizar um dos filhos com o nome Afro.
Textos Jornalísticos
Pedro Cardoso publicou acutilantes artigos em vários jornais cabo-verdianos como a Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919), O Independente (Praia, 1912-1913), Cabo Verde (S. Vicente, 1920-1921), O Manduco (Fogo, 1923-1924), Notícias de Cabo Verde (S. Vicente, 1931-1962), de que foi responsável pela página literária, e A Colónia de Cabo Verde (1940). Colaborou ainda em jornais portugueses como Correio de África (1921-1924) e Mocidade Africana (1930-1932).
Em 1923, Monteiro Cardoso fundou na sua ilha natal o jornal O Manduco (Fogo, 1923-1924), de que foi proprietário, director e editor, do qual se viu obrigado a trespassar a “um grupo de comerciantes e proprietários amigos” e a direcção a Eugénio Tavares, “em todos os tempos o maior jornalista da Província”, por incompatibilidade com o seu estatuto de funcionário público.
Uma referência especial a “A Manduco…”, Crónicas de Afro, publicadas quinzenalmente no jornal A Voz de Cabo Verde. São 33 crónicas de intervenção cívica e política publicadas em 37 números desse jornal do Nhô Abílio Macedo, entre 21 de Maio de 1911 e 17 de Agosto de 1914, na secção homónima, onde, durante três anos,Pedro Cardoso, aliás, “Afro”, das ilhas de S. Nicolau, Boa Vista e S. Vicente, zurziu e alimentou polémica sobre os mais diversos assuntos, da arborização, da estiagem e da fome, ao analfabetismo e à instrução pública, passando pelas questões do Nativismo, da Raça Negra e da autonomia da província, sempre em defesa dos interesses dos filhos das ilhas.
A colaboração de Afro n’A Voz de Cabo Verde surgiu numa altura de profundas mudanças e de efervescência política em Portugal, cujas rivalidades partidárias acabaram por ser transportadas para as Ilhas.
Em Cabo Verde, depois de quatro meses e meio (Outubro de 1910 a Março de 1911) do governo de Marinha de Campos, Primeiro-Tenente da Administração Naval, reformado, e figura destacada da revolução de 5 de Outubro, contestado por algum sector da população, particularmente da Igreja Católica, pela sua política radical, dirigia a província, como Governador-Geral, o Capitão-tenente da Armada Júdice Biker (1911-1915).
Desde logo houve incompatibilização entre o novo governador e os apoiantes de Marinha de Campos, que é como quem diz, os “fazedores” do jornal A Voz de Cabo Verde, que se viram na necessidade de criar a sua própria gráfica, a Tipografia de A Voz de Cabo Verde, como forma de se autonomizar em relação à Imprensa Nacional, tendo radicalizado o seu discurso contra o governador Biker.
Foi assim e nessa altura que A Voz de Cabo Verde pôde contar com o trio mais temível do jornalismo cabo-verdiano: Eugénio Tavares, José Lopes e Pedro Cardoso, que posteriormente viria a transferir-se para O Manduco.
Um outro aspecto a assinalar nas crónicas de Afro é a cultura clássica e humanista vastíssima do seu autor, adquirida no Seminário-Liceu (S. Nicolau, 1866-1917), onde Pedro Cardoso cursou a Instrução Secundária do Curso Preparatório.
Em O Manduco (Fogo, 1923-1924) Pedro Cardoso amplia o espírito das suas crónicas, continuando a bater a favor das suas convicções, do progresso da sua ilha natal e da província de Cabo Verde.
Com uma forte componente literária, publicaram nos 14 números de O Manduco nomes sonantes das letras cabo-verdianas como Pedro Cardoso, Eugénio Tavares, Corsino Lopes, José Calazans, Mário Pinto, José Lopes e João José Nunes, a maior arte deles colaboradores assíduos, e vários nomes ligados à ilha do Fogo.
A Voz de Cabo Verde e O Manduco são hoje praticamente inacessíveis. Não existe em Cabo Verde uma única colecção completa. Quem os quiser consultar deve deslocar-se à Biblioteca Nacional de Portugal onde A Voz está em microfilme e em papel na secção dos reservados.
Em plena era digital e com uma simples parceria entre a Biblioteca Nacional ou o Arquivo Histórico Nacional nosso e a Biblioteca Nacional de Portugal poderia colmatar esta falha. “Senhores [diria Afro], com certa raça de gente, só a manduco…”
Conferências
– Em defesa da língua nativa de Cabo Verde, Praia, 30 de Dezembro de 1933, Conferência no “Cine-Teatro Virgínia Vitorino”.
– Em exaltação a Camões, a Portugal e à língua portuguesa, 10 de Junho de 1934, Camões perante o Mundo Culto.
Pedro Cardoso, como toda a elite intelectual cabo-verdiana de novecentos, primeiras décadas do século vinte, não deixou de manter e exaltar como Pátria sua Portugal, ao mesmo tempo que assumia como Mátria, a África, o Ultramar, Cabo Verde ou, mesmo, a sua ilha ou local de nascimento. Está-se, assim, perante uma noção de pátria (ou pátrias) restrita, a Mátria – local, vila ou terra onde a pessoa nasce – e de uma noção de pátria ampla, a Pátria, dentro da qual aquelas “pátrias” têm a sua existência.
Um outro aspecto a assinalar é uma certa duplicidade dos homens dessa época, na decorrência desse seu sentimento pátrio, que se traduz na assunção de uma bivalência linguística, com a valorização do português clássico, por um lado, e a defesa do crioulo, a língua materna, por outro.
Textos Poéticos e Ensaísticos
Como escritor (poeta e ensaísta), Pedro Cardoso publicou mais de uma dezena de títulos, todos esgotados há muito – Primícias (1908), Caboverdeanas (1915), Jardim das Hespérides (1926), Duas Canções (1927), Hespérides. Fragmentos de um poema perdido em triste e miserando naufrágio (1930), Folclore Caboverdeano (1933), Cadernos Luso-Caboverdianos. 3 volumes: (1) E mi que ê lha’r Fogo, 1941, (2) Ritmos de Morna, 1942 e (3) Sem Tom Nem Som, 1942, e ainda postumamente, Lírios e Cravos (1951).
Estes textos, que precisam ser lidos e divulgados para serem conhecidos, merecem uma análise aprofundada pelo que aqui só serão referidos. Quem sabe venham a ser tema de uma nova palestra.

Brito-Semedo durante o debate
Pedro Cardoso, Hoje
A melhor forma de homenagear Pedro Cardoso hoje é fazê-lo conhecido da nova geração. E isso só é possível através da sua obra, com a reedição dos seus escritos jornalísticos e literários.
Acalentei em tempos um projecto nesse sentido em que teria como associado o então Presidente do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Joaquim Morais. Pedro Cardoso. Textos Jornalísticos e Literários (Parte I), Praia, 2008, foi a primeira publicação, de que se seguiria o jornal O Manduco (Parte II), em edição fac-similada e, por fim, os seus livros de poesia e ensaio (Parte III e, eventualmente, Parte IV).
Não tendo sido possível realizar tal propósito, lanço um repto à Livraria Pedro Cardoso: a reedição da obra do seu patrono, pelo menos, dos seus textos jornalísticos. Para isso, disponibilizo, pronto para publicação, “A Manduco… Crónicas de Afro”. Quanto ao jornal O Manduco, já há o material digitalizado em processo de tratamento para publicação na posse da “Dikor, Publicidade Impressão e Sinalética” e é uma questão de negociação.
“Nós vo-lo rogamos instantemente… a manduco”, como diria Afro.
Tenho dito.
Texto Manuel Brito-Semedo
Fotos Rendy Santos, Jornal Expresso das Ilhas
Praia, 5.Agosto.2014





