Ele aí passa; não conheces, leitor amigo.
Vai roto sujo de carvão, quase negro desfigurado, mascarado. Mão calosas, olhos lacrimosos, chorado carvão, camarinhas de suor, condensado em pasta negra; peito esforçado, chapa de ferro, tisnado e nu. Deixa-o passar leitor. Esse homem não é um negro, não é um escravo não é um vadio é um operário, e o mais útil, o mais filantropo, o mais benemérito dos cidadãos!
É quem mais trabalha na nossa terra para encher os cofres da Província; é quem enriquece os capitalistas de quem é o mais fecundo dos sócios; é quem paga aos funcionários públicos aos professores, às autoridades.
Aquele suor que lhe vês empastelado, que o desfigura, que o caracteriza de negro, de negro de carvão, é que a mim e a ti, a tantos, tantos, sustenta, embranquece, engorda, anedia, avigora e vitaliza.
Mas ele emagrece, mas ele se tisna de negro, mas ele adoece, mas ele algumas vezes, volta moribundo, quebrado, despedaçado, de bordo de algum carvoeiro, onde nos preparava o pão, morrendo sem pão, deixando viúva, filhinhos parentes, que sustentava.
Leitor, repara, escuta: Se não fosse o rude e perigoso trabalho do humilde carvoeiro de S. Vicente, a baía não teria vapores, a cidade não teria casas, as empresas e as casas comerciais não existiriam cá, e as outras ilhas ficariam mortas, sem movimento comercial.
Se não fosse esse humilde cidadão do povo, os rendimentos da província não chegariam para pagar aos empregados públicos, e ficaríamos sem estradas, sem professores, sem defesa nos nossos lares, que as autoridades protegem, como protegem os indigentes, dando-lhes de comer, quando como nestes últimos anos, há falta de chuvas e alimentos.
Muito mais de metade do dinheiro que entra nos cofres da província provem desse humilde e rude trabalho de carvoeiro.
Quando o vires, pois, passar esse teu irmão, tisnado, e roto, ergue-te leitor; curva a tua cabeça, venera o benemérito operário, estende-lhe a mão.
Se te tisnares, ficas honrado; se a Sua mão se erguer para te abençoar, bendize a Providência, porque a mão do carvoeiro é a mão de Deus.
Vista da Cidade do Mindelo e da Baía do Porto Grande. Foto Melo, 1948
Hesperitano
In, POPULAR – Chã de Cemitério, 1914



Eu conheci esses homens do carvão…Eu conheci esses homens da zorra . .que não sei se hoje deslizaria no asfalto da civilização, como deslizava sobre o empedrado irregular da pobreza dos anos 40…Mas foram, também , anos heróicos , de carvoeiros e puxadores de zorra . que construíam o futuro, que ajudavam a cimentar a economia, que davam o exemplo do trabalho esforçado e nem sempre bem remunerado …Gente de barba rija, fazedores de História!
Bom-dia, Amigo Bloguista e Fiel Seguidor da Esquina do Tempo e Homem de Boa Prosa, Grato pelos seus comentários e testemunhos. “Esquecer… ninguém esquece”. Braça
Caro amigo Brito-Semedo ; abrindo hoje esta pàgina da esquina do tempo e ao ler essa troca de palavras com o meu amigo Zito , nao pude resistir em entrar na vossa conversa a respeito do carvoeiro do outro lado da esquina do tempo, dos anos quarenta .. Essas belas fotografias , testemunhando o movimento do Porto Grande de Mindêlo daquele tempo , os estivadores no ( escarregamento dos barcos carvoeiros ) , era uma vida ” airada ” – como diz o Sérgio Frusoni – na sua belissima morna , Sao Cente um vez era sabe , tempe d’ caniquinha.. Mindêlo daquele tempo era outra coisa !
Aquele abraço aos dois .
Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..
…” Mas ele emagrece, mas ele tisna de negro…Morrendo de fome”…
( Noticiado no mesmo Jornal)
REGISTO CIVIL
em S. Vicente
“ Os registos civis atingiram até 30 de Setembro do corrente ano os números seguintes:
Nascimentos: 160
Obitos : 257
Casamentos: 2
Ora os obitos são, na sua maioria de famintos vindos de Santo Antão, de forma que os respectivos registos são feitos gratuitamente, como também o são os “de nascimentos” na sua generalidade. A isto acresce que que os livros não se adaptam ao meio, resultando d’aí grandes confusões nos postos e repartições. chamamos a atenção das estações competentes para estes dois pontos”
Não podia ficar indiferente com esta postagem sobre um capitulo que ficou registado na minha existência, precisamente na altura em que comecei a interessar-me pelas pessoas e pelas coisas que me rodeavam e, além dos meus pais e irmãos, o meu Avô materno era quem mais queria. Sucede que ele era fogueiro na casa das caldeiras no cais da Companhia Nacional (hoje Biblioteca Nacional).
Assim pude ver a faina da chegada do carvão que saia das lanchas com a ajuda das guindastes, transportado pelas vagonetas (foto 1) e armazenado ali mesmo no cais. O trabalho inverso se fazia quando era para fornecer os barcos do precioso combustível.
Outro episódio, não menos marcante, é a zorra (foto 2) de que servia Western Telegraph para o transporte de toda a mercadoria que, primeiramente, dava entrada na Alfândega e depois era recambiada para a Companhia. Isso hoje seria impossível não só pela existência das pequenas camionetas como, e sobretudo, por ter desaparecido a calçada por onde deslizava este transporte… primário mas de pouco dispêndio.
Isso era quando havia vapor na baía, se cozinhava com Cardiff e Nhocasse (New Castle) e Soncente era sabe.