“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa ‘Arco Íris’, da Rádio Barlavento
A Ilha de Santiago
Pedem- me que diga alguma coisa sobre mim mesmo, que faça uma pequena auto-biografia para ouvintes do “Arco Iris”.
Pois seja assim…
Como os meus irmãos e irmãs deste Arquipélago, nasci de um tremendo cataclismo cósmico.
Daí, talvez, o nosso destino…
Um dia, convulsões medonhas, abalando o universo trouxeram-me do fundo dos fundos do mar, do abismo do silêncio para a agitada superfície das águas.
E fiquei imobilizada em peno Atlântico, a meio dos grandes continentes.
Há quanto tempo?
Não sei – nem interessa.
Só me lembro que vivi séculos, talvez milénios, desabitada, vagamente conhecida ou suspeitada dos homens, mas inatingida.
Até que há 5 séculos esses indómitos marinheiros e descobridores, que são a glória de Portugal, resolveram desvendar os mistérios seculares da Terra – chegaram até mim.
Nasci, então, para a História e, na chamada geral das Ilhas deste Arquipélago passei a responder pelo nome do Apóstolo Tiago.
Quando me acharam estava vazia, deserta e triste.
Mas eu era grande, e rica e ambiciosa.
Tinha altas montanhas, vales profundos e risonhos, extensas achadas, água cantante, vegetação lírica; meu solo era rico, meus portos de mar abrigo seguro para navios, e a minha terra generosa tinha condições para proporcionar não só descanso e alimento aos marinheiros como ainda para abrigar milhares e milhares de pessoas que nela quisessem viver.
Cedo os portugueses compreenderam o meu valor.
E primeiro que nenhuma outra Ilha irmã em mim se fixaram – e perpetuaram.
Da terra continental fronteira recebi os meus primeiros habitantes: africanos dóceis, robustos, generosos.
Com eles ficaram lançadas as bases não só para a minha colonização como também para a de todo o Arquipélago.
Com o esforço de ambos – portugueses e africanos – cedo comecei a prosperar e breve em meu solo se erguia a primeira cidade que Portugal criou nos Trópicos.
Conheci desde então a até agora dias altos de grandeza e dias tristes de miséria.
Abriguei donatários e capitães-mores, prelados e homens de armas, fidalgos e plebeus, homens livres e escravos.
Sofri, no passado, o ataque de piratas cujo apetite a fortuna dos meus habitantes despertou.
O meu povo conheceu a brutalidade dos poderosos, viveu horas de baixas intrigas e nele a fome abriu, muitas vezes, sulcos profundos de sofrimento e de tragédia.
Mas progredi sempre, pelos séculos fora.
Em meu solo e através de todas as vicissitudes se formou um povo típico, diferenciado, dono de uma personalidade rica e inconfundível no quadro das Ilhas irmãs.
Esse povo, que ao país tem dado homens de valor, multiplica-se generosamente com o tempo.
Lavra a sua terra, dos vales mais profundos aos cutelos mais altos, cria o seu gado nas extensas achadas; pesca no mar que rodeia a sua ilha, emigra, e com o esforço funda uma nova cidade e várias povoações risonhas que esmaltam a Ilha.
E na base tradicional da família, da propriedade e da religião constrói os alicerces económicos e sociais da sua comunidade cada vez mais vasta, evoluída e progressiva.
Orgulho-me de ter sido, no passado, o fogo de onde irradiou a colonização de todo o Arquipélago e o meu presente em nada me envergonha.
Dizem que com os meus 991 quilómetros quadrados eu sou a maior Ilha do Atlântico; os meus campos cultivados com o suor dos meus filhos constituem o celeiro da Província; sou senhora de uma linda cidade, de duas vilas modernas e progressivas, 3 concelhos e 11 freguesias; em meu solo vivem cerca de 75 mil habitantes, a mais numerosa concentração humana do Arquipélago.
Sou a Sede do Governo, da Diocese e dos Serviços do Estado.
Tenho um passado secular – e também um futuro.
Tudo isto é motivo de orgulho legítimo para mim.
Mas nada me dá maior prazer de que ser útil às restantes Ilhas irmãs, viver com elas na maior harmonia e fraternidade, ajudando-nos mutuamente e todas trabalhando para o mesmo fim: – o progresso de Cabo Verde, sem barreiras, sem ilhas separadas pelo mar.
Amigos ouvintes:
É assim que a Ilha de Santiago pensa.
In Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, Setembro de 1957


