O Menino jaz no seu leito de manjedoura.
Quadro igual a muitos na sua singular indigência
Não fosse a luz ígnea do olhar do Menino
Que um pastor jura ter-se desprendido duma estrela.
Ninguém alcança ainda que seus sonhos prematuros
Percorrem já os caminhos misteriosos da alma.
No mesmo instante, alva pomba cruza a noite escura e sobrevoa
Os labirintos do tempo. Dispara-se um dardo e a pomba cai,
Mas logo renasce e voa porque vive nos sonhos do Menino.
Os sicários da História renascem do pó dos séculos,
E da morte e da destruição fazem a orgia da História.
Porém o Menino sobrevive entre os escombros do templo.
Com cores renascentistas pintam-No e mais tarde suas formas
Reencontram-se em nichos de igrejas e presépios de outros meninos:
– O Menino evola-se então para o desvão da eternidade.
Artífices de ideias pensam o homem e o seu destino e o discurso
E a dialéctica dividem os espíritos e subjugam consciências.
Porém o Menino sobrevive entre os escombros das ideias.
É Natal! Um lenho solitário crepita no fogo da minha lareira.
Nozes, pinhas e azevinho formam o compósito circunstancial.
O luar espraia-se na rua e por momentos parece resgatar
Um halo de eternidade. Vem aí a aurora – oxalá outra Aurora!
No presépio, o Menino dorme sob o olhar místico de sua mãe.
– Quem sabe dos teus sonhos Menino dos nossos sonhos?
– Adriano Miranda Lima, Tomar, Portugal
