O projecto “Pó de (di) Bruma” nasceu do encontro entre dois portugueses em Cabo Verde. Pretende ouvir as vozes do quotidiano das pessoas e das paisagens do arquipélago, quer pelas imagens, quer pelas palavras. Um olhar nem autóctone, nem estrangeiro, apenas pessoal, de um país e das suas gentes.
Tó Gomes, fotógrafo, nasceu em Caldas da Rainha, Portugal, mas mora há já doze anos na cidade da Praia, onde já desenvolveu várias actividades, da informática à restauração. Já participou, com os seus trabalhos em várias exposições e é co-autor dos livros “Olhar a Urbe” e “Essência e Memória”, nos quais publicou fotos com Cabo Verde como pano de fundo.
Luís Rodrigues, de 28 anos, natural de Portalegre, Portugal, é professor na Universidade de Santiago em Cabo Verde, país onde reside há dois anos. Desde cedo se habituou a procurar nas palavras, suas e dos outros, um som que quebre a monotonia da realidade. “Pó de (di) Bruma” é o seu primeiro trabalho de poesia.
A ACRIDES – Associação Crianças Desfavorecidas foi escolhida pelos autores do projecto “Pó de (di) Bruma” para ser beneficiária em 60% do total das vendas. Os autores associaram-se à, ONG que há mais de dez anos luta pela melhoria de condições de vida de muitas crianças e pela defesa dos seus direitos.
Faltando apenas garantir o apoio financeiro necessário, o livro “Pó de (di) Bruma” pretende aliar fotografia, poesia e solidariedade, explorando temas como a mulher, a vida urbana, a história de Cabo Verde ou a infância. O quotidiano crioulo em palavras e imagens.
O “Na Esquina” faz aqui uma mostra do livro.
Cabo Verde
Quando nasci
já fitava
o céu seco,
o lá longe
para onde queria fugir
Logo em meus primeiros passos,
olhos presos no horizonte,
querendo ver
o que seria
não
este tormento de mim
esta solidão desconjunta
esta mãe sem filhos
este abandono…
Quando nasci,
já sabia não ser eu
quem queria
ser.
Baú
Guardo, no baú
do meu peito,
segredo que já sei de cor.
Envolto no medo
de quem serei
tranco em mim
a essência
de quem sou
Por isso fecho os olhos
Por isso viro a cara
à luz de ti,
sonda que me alumia
holofote que me revela,
perscrutando quem já não sei
quem já não sei se sou…
Guardo, na concha
das minhas mãos,
nos pincéis
de pálpebras tristes,
segredo que já sei de coração.




