Ely, Cavaleiro Andante

– Pelo nascimento da sua primogénita (20/11/2011)

 

 – Maria Emília Catela, Praia

 

Conheci este menino – o Ely – com 12 anos. Para além de partilharmos a casa e as refeições, gostávamos muito de ir a pé, só os dois, até à Prainha para um banho de mar. Íamos conversando, saco da toalha às costas e cabelo ao vento. Descíamos pelas escadas d’O Poeta, cortávamos pelas ruelas do bairro lá em baixo, passávamos ao lado da casa do Primeiro Ministro de então – aí cumprimentávamos o guarda, ainda que não fosse conhecido (ele sai ao pai, a cumprimentar toda a gente!) – e continuávamos até ao mar. Mais tarde, fazíamos o mesmo caminho de regresso.

  

Costumava vaguear por ali um homem andrajoso e perturbado, que nos falava, mas que o Ely mantinha a distância. Reparei que, de cada vez que nos cruzávamos, ele tendia a ficar mais afoito. Até que, um dia, ele decidiu, no nosso caminho de regresso, seguir-nos de perto, conversando sem parar para mim, com quem, parece, queria amizade, penso que até namoro! Devo confessar que me assustei um pouco, pois o homem parecia determinado e eu não sabia até que ponto ele se podia tornar violento. Então, o Ely, que lhe ia falando, mas não conseguia pôr cobro ao interesse do homem, delineou uma estratégia e disse-me: “Quando passarmos pela casa do PM, vou pedir ajuda aos guardas e tentaremos reter o homem, enquanto tu continuas e escapas-te.” Se assim o pensou, melhor o fez e os dois lá conseguiram travar as intenções do meu admirador, enquanto eu seguia sozinha para casa, não sem ir constantemente olhando por cima do ombro. Uff! Escapei! E senti-me deveras privilegiada por ter tido comigo um verdadeiro Cavaleiro Andante!

 

 

6 comentários em “Ely, Cavaleiro Andante”

  1. Mili, adorei o teu relato, muito ternurento! Achei o enquadramento das fotos, um espanto, parecendo até um complemento do texto- cumplicidade de ambos.
    Beijinho do tamanho do Indico
    Fernanda Ribeiro
    Maputo- Moçambique

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    • Fernanda, agradeço-te as palavras de apreço e amizade. De facto este menino (que o vejo sempre daquela idade e nas nossas cumplicidades), tal como o seu irmão, têm um cantinho só deles no meu coração. Saboreei os teus beijos índicos, que chegaram com o sol e a maresia de Maputo. Tenho saudades… Mil beijos, Maria

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