Foto de Carlos Loff Fonseca, gentilmente cedida pela esposa
Ess’ali na esquina é Maria dos Dores, a Bia.
Há anos, quando não havia água canalizada
Ela era jovem criada de servir, criada de dia
Carregava a água de Madeiral para morada.
Ela era tão garbosa, agradável, contentinha
Andou pela escola e outros predicados tinha.
Depois, a jovem pretinha cheirando a sabão
Com frescura no corpo, que nunca dizia não
Perdeu sua juventude, a honra e a inocência,
E para com ela, já ninguém tinha paciência.
Chegou a traiçoeira velhice, lançou as raízes
A miséria e a doença nas pernas com varizes.
A vitalidade da sua juventude desaparecia
Já não tinha forças para ser criada de dia.
Sem água canalizada a merda era enlatada
E na calada da noite por ela era despejada.
Como a Bia tinha de ganhar a subsistência
Para não pedir esmola e viver de assistência
Então, na esquina, contava as horas do dia:
às nove horas ia buscar a lata de serventia.
– Valdemar Pereira, Tours, França

Este blog é rico em informação cultural de toda a ordem, caro Brito-Semedo! Estarei atento!
Serventia: um termo muito utilizado, registrou-me a memória.
Aplicado às criadas, lembro dos filmes com temática secular, da realeza palaciana e das serviçais que, como a Bia, eram encarregadas daquele serviço, digamos assim, urgente, importante e essencial, cujo valor nem sempre era reconhecido, a não ser pelas compadecidas e interessadas “sinhàzinas”, filhas do dono de engenho que valiam-se da Criada de Dia para entregar bilhetes amorosos ao filho do fazendeiro, inimigo do seu pai; também da princesa com caso de amor semelhante.
Fez-me lembrar a Maria do Brasil que ainda existe; a mulher com rodilhas na cabeça, subindo ladeiras, escadas ou caminhando léguas, mexendo o corpo para lá e para cá, equilibrando a lata d´água no agreste sertão; enquanto o povo, nas bandinhas dos bairros nobres do Rio de Janeiro canta ainda no carnaval:
“Lata d´água na cabeça ,
lá vai Maria…
sobe o morro , não descansa;
pela mão leva a criança,
lá vai Maria.”
Um abraço para Valdemar, para a Bia, para o Manuel Brito e para a Maria.
Este poema de Valdemar Pereira devolve-nos à mundividência mais genuína do cosmo popular mindelense para ali resgatar o que existe de sonho justo ínsito em bem entranhada pobreza. A aventura humana é toda ela igual nos parâmetros essenciais que balizam a existência do ser, variando apenas o circunstancialismo social que a rodeia e a norteia e a ampara, por isso determinando-a. Razão teve Ortega y Gasset para afirmar que o homem é a sua circunstância.
Todo o ser humano vem ao mundo intacto no seu direito de aspirar a uma vida normal, justa e decente, mesmo que ela restringinda a uma moldura de pobreza material. O sonho de toda a menininha pobre da nossa terra, ontem como hoje, é trabalhar consoante as suas possibilidades e conhecer um homem a que possa ligar-se para constituir família ou no mínimo gerar de forma responsável descendência para posterior amparo na velhice. Esse seria o sonho lídimo da Bia na sua labuta diária e infrene entre o Madeiral e as casas da morada, com as latas de água à cabeça. Conheci algumas dessas menininhas, a maior parte delas correspondendo ao fenótipo humano posto em relevo nesta bem conseguida expressão do imaginário poético de Valdemar Pereira. Uma conheci já mulher bem madura, a Maria Salema, desiludida e rendida ao destino de carregar as “latas de nove hora”. Algum sarcasmo e amargura que ela exteriorizava no seu comportamento, macerados no álcool, não eram mais que o rosário das suas penas e frustrações. (Continua)
(Continuação)
O percurso da Bia é aqui poetizado com muita mestria mas sobretudo com a sensibilidade humana que é própria do autor. Se os versos denotam alguma discreta sátira mofina no modo de dizer, não deixam contudo de denunciar de forma bem patente o lado trágico e amargo da vida de pobre. Valdemar Pereira corre por instantes a cortina que separa o dia da noite para desvendar a diferença de padrão, mesmo na fatalidade da sua miséria, entre o trabalho duro e limpo, ocorrido à luz do sol, e o trabalho penoso e sujo, oculto pela calada da noite. O autor revisita a triste sina das camadas sociais mais desprotegidas do povo das nossas ilhas, sobretudo a das mulheres, ao mesmo tempo que faz reemergir dos subterrâneos psicológicos a indiferença, se não despreziva pelo menos cruelmente distanciadora, com que a sociedade olhava para quem lhe despejava as imundícies secretas.
Todos os que têm memória e sentimento são assaltados por uma profunda e retrospectiva mágoa ao lembrarem-se da Maria das Dores, da Maria salema e de todas as criaturas humanas que a crueldade da vida relegou para a sarjeta. Todos somos ou fomos culpados.