O Sonho – Memórias dum Doido (3)

Foto do Google, Autor Desconhecido

 

Oh sonho meu desfeito!

Voaste-me criança…

Deus sabe se eu te amei!…

(Gonçalves Crespo)

 

VI

 

Uma tarde, ao sair do escritório para o meu passeio quotidiano, passava um enterro. Era o dum rapaz simpático e geralmente estimado, o Évora, que morrera na véspera, vítima da ruptura dum aneurisma. Fora meu amigo, um dos raros que me tratavam invariavelmente com benevolência igual.

 

Depois de alguma hesitação, e muito corar e tremer, incorporei-me pois no préstito, olhando a medo para a multidão que me cercava, como a pedir-lhe perdão pela minha ousadia.

 

Então tive uma grande surpresa e uma grande alegria.

 

Essa multidão, em parte nem deu por mim, e parte olhava-me com alguma estranheza, nada hostil; mas o que mais me animou foi o parecer-me que as pessoas que me ficavam mais próximas, principalmente mulheres do povo, contemplavam-me com certa simpatia, que logo se comunicavam entre si por gestos e olhares.

 

Creio que o meu luto recente e sabido, além disso visível, a minha tristeza que não se tinha ostentado, mas recolhido longamente, o meu abatimento não fingido, enfim, a compaixão pelo infortúnio e pela dor, tão pronta a despertar-se nessas tristes ocasiões em corações singelos e naturalmente bons, atraíam-me aquela benevolência. E depois eu, tendo fugido até ali aos prazeres, ao bulício, aos interesses, e até mesmo à sociedade, contudo procurava agora, identificava-me com a sua dor, associando-me nessa triste homenagem prestada a um amigo comum e a um bom moço.

 

Não sei explicá-lo: mas o certo é que me senti como desopresso dum peso enorme, e à medida que íamos caminhando, o coração dilatava-se-me, respirava até melhor, olhava já para todos com inteira confiança, reconhecia que os homens eram bons em geral, e que era bom viver com eles assim…

 

Não!… A sociedade não é má só porque um ou outro mimoso da sorte nos maltrate, ou porque nos não poupe a censura.

 

Sempre assim pensei. Tenho escrito muito, e em nenhum dos meus pobres escritos se encontra uma única linha declamatória contra a sociedade ou a mulher.

 

A sociedade é o conjunto de todas as nossas imperfeições, que devemos revelar-nos mutuamente.

 

A mulher é sempre anjo… do bem ou do mal. Não devemos considerá-la amante, mas esposa e mãe… menos quando vende a filha

 

A felicidade pessoal é relativa. A satisfação comum prima.

 

A satisfação do homem está na sua consciência.

 

Ser honesto e ser bom, eis tudo.

 

……………………………………….

 

Chegámos ao cemitério.

 

O corpo desceu à terra, volveu ao pó o que era pó. O que seria da formosa alma que o animava?…

 

Mistério, que provavelmente perturbaria naquele momento os mais despreocupados espíritos.

 

Retirou-se lentamente o cortejo, ficando só algumas mulheres ajoelhadas pelos diversos canteiros do cemitério, chorando sobre os túmulos que encerravam algumas recordações queridas e saudosas.

 

Saí, mas, em vez de me dirigir para a cidade como todos, fui seguindo no meu caminho de costume, para a Lapa dos meus passeios predilectos.

 

Chegado ali, só então olhei para trás para ver o acompanhamento, que regressava à cidade.

 

E qual não foi o meu espanto ao ver paradas junto de mim a ti, Cosette, e a tua mãe, que me tinham seguido?…

 

Conheciam-me, eram minhas próximas parentes, e eu tinha-as olvidado no abismo do meu viver.

 

E elas, tendo-me reconhecido no cemitério, seguiram-me, cheias de afecto e compaixão.

 

Sim… eu julgava que era isso… Mas não sei… Que inferno!…

 

Hoje, quando penso na perversidade da tua mãe, chego a crer que era simplesmente o interesse que a impelia para mim, arrastando-te consigo, pobre anjo!…

 

Mas naquele dia, e por algum tempo, julguei que era compaixão e afecto…

 

Regressámos juntos à cidade.

 

Mas, para que relembrar o passado?!…

 

Desde aquele dia começou vida nova para mim.

 

Eu o João Valgean, o espúrio da sociedade, tinha encontrado a minha Cosette!

 

E tu deixaste de ser a criancinha pálida, magra, esfarrapada, e te tornaste formosa, tiveste bonitos vestidos, jóias, e o colar dos meus braços, e a luz da minha alma, e os meus carinhos famintos e insaciáveis de amor, e o calor dos meus beijos!…

 

Porque eu amava-te!… E com o amor entrou em mim vida nova, fiz-me outro homem.

 

Frequentei a sociedade, lutei, elevei-me.

 

Trabalhei, amei, vivi!

 

E fui feliz, muito feliz… por algum tempo.

 

Foi tudo um sonho!…

 

Porque desde que entraste nos catorze anos, e, flor mimosa, começaste a desabrochar em todo o esplendor de uma primavera forte e luxuriante, quando eu conheci que te amava como se ama a mulher, e não a criança, a filha… então a tua mãe ensinou-te umas coisas hediondas, ensinou-te até a desprezar-me, a mim, que te amava com toda a pureza, de meus loucos transportes! e, pouco a pouco, perdi os teus carinhos, perdi os teus beijos, perdi o teu amor, sumiu-se a luz da minha alma, caí de novo nesta tristeza horrível, e… fugi de ti… para não te matar como mata o réptil que aquecemos no seio e nos morde o coração…

 

Porque percebi que amavas outros… amavas muitos… amavas a todos… menos a mim!…

 

E fugi!… porque não era tua a culpa… Tua mãe é que depôs o veneno da corrupção na tua alma, assim como a natureza põe a peçonha no dardo do áspide…

 

Oh! raiva!… E amo-te sempre!… E persegues-me ainda nos meus sonhos?!…

(Continua)

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