No artigo de fundo do jornal A Vanguarda, de 3 do corrente (Julho [de 1911])[1], intitulado “Defendamos a República”, recordamos o seguinte período: – “Generosa República, agora está vendo quanto lhe há-de custar cara a generosidade para com vilões indignos de complacências, para com homens cujos músculos, cujos nervos e cuja alma são modelados com a lama das traições”
Ora, em verdade, em verdade vos dizemos, prezados leitores: também se conspira em Cabo Verde. Quereis conhecer os conspiradores? – Não são tão corajosos que se dêem à evidência armando-se para a luta, não. Têm outro plano. Atentar bem nos seus actos públicos, como detentores do poder. Emboscados na sua malvadez, procuram tornar a República odiosa pelos erros e desmandos conscienciosamente praticados, os quais a ignorância popular não atribuirá senão ao novo regime. E enganoso é o plano, e próprio dos jesuítas. O jesuíta é o polvo humano. Adapta-se a todos os meios, toma todas as cores; recebe sorrindo os mais formidáveis pontapés, e se lhe escarram numa das faces, apresenta a outra… porque lá tem os seus tenebrosos fins.
Todo o conspirador – quer se arme para de parceria com estrangeiros invadir o solo pátrio, quer servindo-se da sua posição social ou oficial, procure por palavras e obras desacreditar as novas instituições – é traidor. Ergo, se em Cabo Verde há quem conspire, é porque há também traidores. Entre portugueses, sabemos porque no-lo diz o maior homem de Portugal, “que traidores houve algumas vezes”. Mas entre os cabo-verdianos… é novidade para quem desconheça o ditado: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei as manhas que tens”!
Os conspiradores cabo-verdianos são duas vezes traidores: traidores à Mãe Pátria, traidores à sua província natal.
Quem é que lembrando-se da hecatombe de 1903 a 1905[2], ainda desejará o regresso da monarquia? – Atenção, amados irmãos:
É também crime da alta traição mancomunar-se com quem quer que seja, estranho à colónia, para prejudicar, ou esmagar um compatriota. Ouvistes?
Diz ainda A Vanguarda cuja seriedade orça pela sua respeitável idade – “O momento não é para contemplações com adversários, é para acções de superior energia, para resoluções firmes e decisivas…”
Escusado fora dizer da seriedade do jornal, bastava saber-se que é dirigido pelo valoroso jornalista, Sr. Feio Terenas. Continuando: – “Para que de tudo isso que perturba e incomoda, não fiquem sementes preste o governo cuidadosa atenção aos elementos reaccionários e facciosos que… covardemente se ocultam para conspiração e submissa e alegremente se manifestam, à luz do dia, como resignados com a República, ou entusiastas pela República”. “E não são poucos… São muitos, uns ainda acomodados pelas repartições várias e outros livremente fomentando a desordem…”. Nestes está o maior perigo, porque em alguém poderá confiar o governo.” Proceda-se à limpeza. Motivos há de sobra para terminarem benevolências e generosidades.” – Proceda-se à limpeza, ouvistes, amados irmãos? E nós de há muito que vimos pregando a mesma doutrina… sem jamais sermos ouvidos.
“A Pátria está em perigo”, clama o Intransigente. Se perigo corre a Lusa Pátria, maiores perigos corre o nosso desafortunado Cabo Verde, onde os talasses fervilham e continuam ditando leis.
Uma pergunta: – Se o Couceiro[3] nos aparecesse por cá, como seria recebido? Nós vo-lo dizemos: as principais autoridades iriam em trajes de gala e ao som do Hino da Carta recebê-lo a bordo e acompanhá-lo-iam sob o pálium à igreja onde se cantaria um Te Deum em acção de graças. Após o que haveria jantar, baile até romper o dia.
Então, levantariam na praça mais pública uma forca onde o primeiro a espernear seria, quem sabe? o vosso irmão.
AFRO
[1] O jornal A Voz não saiu de Junho a Novembro quando, como se disse atrás, se incompatibilizou com o Governador Júdice Biker, deixando de utilizar a Imprensa Nacional, tendo criado, para o efeito, a sua própria gráfica, a Tipografia de A Voz de Cabo Verde.
[2] Referência à crise em que morreram de fome em menos de um ano, só na ilha de S. Tiago, mais de vinte mil cabo-verdianos.
[3] Referência ao Major Henrique de Paiva Couceiro, herói de África que, no Regime da Monarquia tinha sido galardoado como benemérito da Pátria, e se recusara a prestar juramento de fidelidade à República, vindo a conspirar para a restauração do Trono.
