
Quando o estilo se transforma em memória cultural
Ao Leão Lopes
Poucas imagens terão ficado tão gravadas na memória colectiva cabo-verdiana como a de Baltasar Lopes de boina basca e óculos redondos, olhar firme, sereno e inquisitivo. Esse retrato não é apenas a fotografia de um homem; é a síntese de uma geração que ousou pensar o arquipélago em diálogo com o mundo. Essa boina, afinal, não era um detalhe qualquer: trazia consigo histórias, significados e ecos de outras geografias.
Importa acrescentar que a boina era adquirida na Papelaria Gomes, conhecida por todos como Papelaria de Toi Pombinha, que a importava e comercializava na cidade.
A boina basca, nascida nos Pirenéus, correu mundo: dos pastores montanheses aos operários urbanos, dos soldados franceses aos intelectuais parisienses, tornou-se adereço de quem, sem perder raízes, se abria ao universal.
Baltasar, formado em Lisboa em 1929, em Filologia Românica e Direito, atento ao pulsar europeu, poderá tê-la usado por moda, por gosto pessoal ou como sinal de pertença a esse espaço mais vasto onde ideias e culturas se cruzavam. Mas, qualquer que tenha sido a intenção inicial, a verdade é que a boina, na sua cabeça, acabou por ganhar um valor que ultrapassou a simples escolha de estilo.
Em São Nicolau, a boina fazia parte da paisagem quotidiana: pousava na cabeça dos rapazes a caminho da escola e acompanhava os homens no trabalho e no convívio, enquanto o barrete permanecia como alternativa discreta dos mais velhos. Ao envergá-la, Baltasar Lopes poderá ter querido, numa síntese única, não apenas alinhar-se com a moda europeia, mas afirmar também, sem reservas, a sua condição de sanicolaense, transportando consigo um gesto de pertença enraizado na ilha.
Em Cabo Verde, a boina tinha outro peso. Usada por marinheiros regressados da Europa e por homens do campo, era acessível e prática contra o vento. Entre finais do século XIX e meados do XX, a boina tornou-se símbolo operário e distintivo da esquerda europeia – dos anarquistas da Catalunha aos republicanos da Guerra Civil de Espanha – antes de ganhar prestígio intelectual em Paris.
Em Baltasar, a boina reuniu mundos distintos: o popular e o erudito, a insularidade e a abertura ao Atlântico. E assim, sem precisar de palavras, aquela boina dizia tanto quanto muitos discursos – Cabo Verde queria afirmar-se e estar no mapa da cultura.
Se os óculos lhe davam a gravidade de professor, a boina acrescentava-lhe o ar de homem moderno, aberto ao diálogo e ao confronto de ideias. A imagem de Baltasar com a boina basca ficou, assim, inseparável da Claridade, revista fundada em 1936 e marco da literatura cabo-verdiana moderna.
Não sabemos se ele próprio lhe atribuiu tanta importância. Talvez fosse apenas um hábito quotidiano, um gosto estético ou um jeito de se proteger do vento mindelense. Mas, com o tempo, esse detalhe banal transformou-se em signo maior. Na cabeça de Baltasar Lopes, a boina basca deixou de ser simples cobertura contra o vento para se tornar sinal de estilo e metáfora de identidade. Entre hábito e emblema, ficou como marca indelével da figura do escritor e da memória cultural de Cabo Verde.
– Manuel Brito-Semedo