
Chiquinho (1947) de Baltasar Lopes funciona como espelho-retrovisor para se ter referências e se poder orientar na leitura do Acushnet Avenue (Pelos Caminhos de Chiquinho) de José Cabral.
A aventura romanesca começa no navio Atalanta com Chiquinho a bordo. O rumo é Nor-noroeste. A proa era a América.
Para escrever Acushet Avenue (Pelos Caminhos de Chiquinho), José Cabral, um profundo conhecedor da história da sua ilha, desenvolveu uma apurada investigação histórica sobre a baleação e a vivência dos emigrantes cabo-verdianos nos States, bem assim sobre a história social, cultural e política da ilha de Chiquinho em diferentes épocas, dos anos 30 aos anos de 1980, recuperando e fixando a memória, ainda que de forma ficcionada, do período conturbado de entre duas bandeiras.
Vejamos como o romance se estrutura em função do espaço onde se movimentam as personagens, o tempo da narração e as personagens.
– Os Espaços onde se movimentam as personagens
Todo o espaço físico é São Nicolau, a maior parte do tempo invocado, mas depois vivido na plenitude, com breves deslocações a São Vicente.
Estados Unidos (New Bedford), para onde Chiquinho emigrou com 20 anos e se estabeleceu por 32 anos. Há aqui a recriação, pela invocação, de uma época áurea da história da baleação e do início da emigração dos cabo-verdianos.
Se não estou em erro, dos nossos escritores, apenas Teixeira Sousa fala dessa realidade no seu conto “Contra Mar e Vento”.
– O Tempo da narração
1930, quando Chiquinho chega a New Bedford e se instala na 102 South Second Street, até 1962.
Regressado à sua ilha natal, envolve-se na reconstrução da sua vida familiar, social e cultural e dedica-se à cidadania activa.
Com 77 anos, com um novo ciclo de vivência na terra de 25 anos, ou seja, em 1987, Nhô Chiquinho realiza-se como escritor e publica o livro da sua vida, começada diazá na munde, Anátema Predestinação, que era para ser Destino Aziago.
– As Personagens
Todo o universo do romance Chiquinho e uma mão cheia de outras figuras locais que, se se fizer algum um esforço, poder-se-à identificar as pessoas que as originaram.
Do livro em si, ajuizará quem se dignar lê-lo, como diria Nhô Chiquinho.
Muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam a existência do “eu-individual” que só é permitida mediante um contacto com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro, ou seja, a própria sociedade diferente do indivíduo). Pois bem, ocorreu-me que seria interessante, nesse jogo de faz de conta, confrontar Nhô Baltas, em alteridade, a dialogar com Nhô Chiquinho.
– Eu, autor de Chiquinho, e Nhô Chiquinho, autor de Anátema Predestinação?!
Imagino a gargalhada estrondosa do Mestre!
– Manuel Brito-Semedo