Morada, Rua de Lisboa, Mindelo. Foto de "Ratrote", Hélder Doca, Abril.2013
Há cerca de 60 anos nascia Pródiga, a primeira novela de António Aurélio Gonçalves (Mindelo, 1901 – 1984), lançada na Noite de Vento, juntamente com as outras oito irmãs, a seguir à morte do autor, em 1985, por Arnaldo França.
Passados trinta anos sobre a organização das novelas de António Aurélio Gonçalves num único volume sob o título Noite de Vento, por sinal, esgotado há muito, o Esquina do Tempo saúda a criação da Cátedra António Aurélio Gonçalves de Estudos Cabo-verdianos, pela Universidade do Mindelo, por ocasião da abertura do seu ano académico, ao mesmo tempo que homenageia o homem e o escritor e assinala este importante marco da literartura cabo-verdiana.
Fica um apelo aos mindelenses: que se apropriem da obra deste grande escritor que melhor soube interpretar a alma das gentes da sua cidade, dando-lhe um estatuto literário.
Uma Revisitação aos Lugares do Mindelo de Nhô Roque
Mindelo é o espaço privilegiado e o pano de fundo exclusivo de toda a novelística de António Aurélio Gonçalves, excluindo Noite de Vento e A Consulta, em que existem breves referências memorialistas ao meio rural de Santo Antão[1].
Nesse realismo gonçalviano a ilha surge definida em limites gerais e, sem se deter em pormenores, é apresentada a “Morada”, fixando-se em alguns bairros da periferia.
Na novela O Enterro de Nha Candinha Sena (1957), Cristiano, do alto de Celarine faz um ângulo de 180.º com o pescoço seguindo a cinta de penhascos e montes que delimitam a ilha. Começa no extremo leste, no Monte Verde, percorre São Pedro, no sul, e completa o semicírculo apanhando um trecho da baía e o Monte da Cara, ao ocidente.
Ao privilegiar a cidade do Mindelo, algumas zonas ou ruas surgem como acidentes ou simples referências enquanto outras aparecem como palco de acções menos importantes. Tal é o caso da zona da Praça Nova, o Largo da Alfândega, com a sua Esplanada dos Aviadores, a Rua de Lisboa, a Pracinha da Igreja e o Largo do Dr. Regala.
Nas noveletas (assim chamadas modestamente pelo seu autor) o leitor é guiado na toponímia da cidade enquanto o autor, como verdadeiro cicerone vai caracterizando a geografia económica e humana. É bom não perder de vista a importância pedagógica e manipuladora desta atitude de cicerone.
A “Morada” funciona como o centro da vida sanvicentina em que há um movimento pendular de atracção <–> repulsão; centro <–> periferia, em busca de uma melhoria social e económica.
Melhoria económica, na baía do Porto Grande, nas casas das senhoras da Praça Nova, num lugar favorável para o comércio evitando, assim, acabar os dias no Rabo da Salina, ou em outro sítio qualquer;
Melhoria social, pois é ali onde se adquire o estatuto de Dona, como são os casos das donas Lolinha e Zulmira, enquanto outras ficam Nhas, como Nha Candinha, Nha Maria Arcângela[2];
Melhoria espiritual, na procura da Igreja Matriz para o alimento espiritual.
O coração da cidade é apenas referido como lugar de onde saem caminhos para os bairros periféricos. É o caminho da Praça Nova, em direcção ao norte, que vai dar ao Madeiralzinho (Noite de Vento, 1970); a Pracinha do Dr. Regala que leva aos bairros do lado oriental, como o Alto de Celarine e a Fonte Filipe, e ao sul a Chã de Cemitério (O Enterro de Nha Candinha Sena, 1957). É a Rua de Lisboa que leva ao Alto de Celarine (Biluca, 1977) ou é a Rua António Nola, que leva ao Lombo (Pródiga, 1956, e Virgens Loucas, 1971).
Os bairros periféricos são enumerados na novelística de Aurélio Gonçalves mas, os que realmente constituem o espaço de montagem das novelas e, por isso, bem caracterizados, são a Fonte Filipe (Noite de Vento), o Alto Celarine (O Enterro de Nha Candinha Sena) e o Lombo (Pródiga e Virgens Loucas).
Fonte Filipe é apresentada como um morro onde há vento que vem de longe, que se levanta “traçando o desenho de uma pirâmide a oriente da cidade, impedindo o seu alargamento em direcção à Ribeirinha”. A paisagem “árida, escura, de uma cor suja de terra sem húmus, ao abandono” onde se dispersa “um casario de construções variadas na sua pobreza, compreendendo desde as filas do rés-do-chão com paredes de alvenaria, cobertas de telha, habitáveis, até às barraquinhas levantadas sobre ripas forradas de lona”. A população tem um viver difícil e incerto mas resignado: “as mulheres ‘sobem’ o seu cuscuz, fazem o seu giro, compram e revendem confeitarias […], os homens andam pela cidade a ver se tiram um dia de serviço”. Enfim, são sketchs, instantâneos do quotidiano da “vidinha de SonCente”
Alto de Celarine, como próprio nome o define, é um alto que fica nas proximidades da Fonte de Cónego e da Fonte Filipe, com as mesmas características socioeconómicas deste.
Lombo é o desembocadouro da Rua António Nola, pálida lembrança de um “Mindelo de há muitos anos, com um porto animado de um movimento tumultuoso, insuflando vida a uma população atarefada e variada de trabalhadores da baía, delirando em bailes a pau-e-corda, oferecendo ligações fáceis, consumindo vidas”. A sociedade do Lombo é constituída por gente de muitos ofícios, alguns empregados, outros com a vida no ar, sem ocupação. A sua animação deve-se ao “marítimo que vem de longe, cansado de mar, faminto de terra firme, de mulheres, sedento de álcool e com vontade de dançar, de fazer doidices”.
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[1] Chama-se atenção para o facto de A Consulta ter sido originariamente publicado no Boletim Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, N.º 32, Praia, Maio de 1952, com a seguinte observação do autor: “Capítulo de um romance em preparação: A Noite de Vento. Um outro facto importante é que a personagem masculina Virgílio é comum aos dois textos. Em Noite de Vento é o marinheiro que faz o seu “giro” entre Santo Antão e são Vicente e, em A Consulta, é o filho de Nhô Serafim Pedro da Graça que acompanha o pai, que vem de Santo Antão, ao consultório médico, em São Vicente. Talvez isso explique e reduza para apenas um único texto a evocação de Santo Antão, bem assim o facto de o protagonista em A Consulta ser feminino.
[2] Confronte com o conto Nocturnos de D. Emília de Sousa”, in Raízes, N.º 1, Praia, 1977, em que Baltasar Lopes explica a degradação do status social como consequência directa da degradação económica: “No princípio, ela não era Nha Milinha. Este acidente veio vindo, veio vindo, com passos aveludados à procura da presa, até que a encontrou… a presa não era lá muito arisca, mas tinha defesas que as conveniências do mundo e da fortuna haviam eriçado como sebes passivas, à sua volta. Dona Emília de Sousa nunca se deu conta de como, hoje uma, amanhã outra, as ramadas já secas da sebe se iam desconjuntando”.


Considero os contos do Dr. Gonçalves obras a trazer quando se parte. Dos dois vendavais que tive, consegui salvar alguma coisa do meu antigo professor mas penso não ter o primeiro dos seus seus contos, seja: – “O enterro de Nha Candinha Sena”.