Foto Arquivo Raúl Vera Cruz Barbosa
Figura precursora e das mais prestigiadas da moderna poesia cabo-verdiana, Jorge Vera Cruz Barbosa é, historicamente, o anunciador, com a publicação Arquipélago, em 1935, da viragem para os problemas da terra, assumida pelo movimento literário aparecido em 1936. Este movimento aparece ligado à revista literária Claridade.
Enquanto o primeiro número da revista, já pronto há muito no original, era preparado para impressão na tipografia do Mindelo – donde só viria a sair em Março de 1936 – as Edições Claridade lançaram a público o livro de estréia de Jorge Barbosa. É assim que se explica que Arquipélago tenha funcionado como prelúdio do aparecimento daquela revista literária.
Jorge Barbosa, para além de sempre ter vivido no Arquipélago de Cabo Verde, no meio do Atlântico e na intercepção de dois mundos, “desterrado da Europa e da África, sem Continente, insular no próprio domínio da cultura”, residiu durante vários anos na ilha do Sal como quadro dos serviços aduaneiros. Esta circunstância fazia-o comparar-se aos encerrados, o que se reflecte na sua poesia, com o desespero de “querer partir e ter de ficar”:
Pobre de mim que fiquei detido também
na Ilha tão desolada rodeada de Mar!…
… as grades também da minha prisão!
ou ainda:
– Ai o mar
que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos!
– Ai a cinta do mar
que detém ímpetos
ao nosso arrebatamento
e insinua
horizontes para lá
do nosso isolamento!
A monotonia e o viver das coisas “simples” do quotidiano, chegam-lhe distantes, como “rumores”:
Rumores de romper da manhã
nos pilões […]
Rumores de faixas marítimas
dos pescadores […]
Rumores da emigração,
nos carimbos postais […]
Rumores tagarelas
nas lojas rurais […]
… e das ondas
à roda das Ilhas…
A monotonia é quebrada apenas pela chegada de algum paquete:
O paquete fundeou no porto
mas só por momentos
porque depressa partiu outra vez.
Assim sendo, resta ao Poeta o dom de fantasiar:
Cidades
terras distantes
que apenas sei existirem
por aquilo que se diz…
E, na solidão da ilha, o Poeta recorda a “mulher estrangeira” que passou no vapor:
Aquela mulher que me fixou por acaso
e que eu olhei um instante com curiosidade,
………………….
Eu talvez me recorde dela
mais logo também,
à hora
de ouvir na telefonia esses rumores todos
que vêm
das terras distantes…
Fica a resignação ante o desterro do Mundo:
[…] nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós das estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!
Devido a essa temática do terra-longismo, Jorge Barbosa foi incompreendido pelas gerações posteriores e acusado de evasionismo. Contudo, há que lembrar que “um poeta é um fingidor”.
Capitão dos mares
foi na imaginação que o fui…
………………….
Era tudo mentira
dos meus versos
impossíveis
da minha fantasia.
A cabeça pode divagar, mas a realidade está ali:
– Ai o drama da chuva,
ai o desalento,
o tormento
da estiagem!
– Ai a voragem
da fome
levando vidas!
(… a tristeza das sementeiras perdidas…)
ou
Malditos
estes anos de seca!
………………….
Há quanto tempo não rodam
as pedras dos moinhos!
Há quanto tempo não se ouve
o som monótono e madrugador
dos pilões cochindo…
A obra poética de Jorge Barbosa está organizada em três livros: Arquipélago (1935), Ambiente (1941) e Caderno de um ilhéu (1956), reunidos em Jorge Barbosa, Poesias I (1989) – para além de vários outros poemas publicados esparsamente pela imprensa cabo-verdiana e estrangeira[1].
A poesia de Jorge Barbosa tem merecido, ao longo dos anos, o interesse de vários estudiosos da literatura africana.
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[1] Em 2002 foi editada a obra poética completa de Jorge Barbosa, Obra Poética, de Jorge Barbosa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002.

Penso que as críticas de gerações posteriores ao evasionismo claridoso, sem se questionar a sua legitimidade, têm de ser sempre vistas no seu contexto temporal. A verdade é que o movimento claridoso teve o mérito de marcar o início do modernismo na literatura cabo-verdiana, superando a tensão entre o Romantismo e o Realismo, mercê de uma literatura baseada na realidade concreta das nossas ilhas, com denúncia do quadro de miséria, fome e abandono a que estavam votadas, e assim inaugurando uma nova estética e linguagem.
Não me parece que o “evasionismo” deva ser interpretado para além do sentido metafórico do sufoco de uma clausura em que o homem convive com uma natureza madrasta, apercebe-se de que ninguém o acode e não vê outra saída imediata senão transpor os muros da prisão ou sonhar ao menos com o que estará para lá dos líquidos horizontes (terralongismo). Acaso o evasionismo não traduz um grito de revolta recalcado, condição para a fermentação da consciência colectiva que iria seguir-se? Acaso o evasionismo é inseparável do simples desejo de lá fora obter meios para um dia regressar à terra e desfrutar de uma vida melhor? Ora, a emigração encarregar-se-ia de o demonstrar. É por isso que os claridosos têm de ser vistos como precursores, iniciadores de algo sem precedentes, um mérito que nenhuma crítica lhes poderá negar. Iluminaram o caminho e do resto se encarregou a história, com a sua dinâmica natural, para o bem ou para o mal.
Um dos nossos mais conceituados homens de letra que conheci cedo (laços familiares) mas descobri tarde devido não poder ficar e ter de partir. Jorge Barbosa um imortal.