A falta é deplorável, nos estremece
quando ela persiste, nos envelhece
e a morte bom desfecho nos parece.
Tudo sucedeu dias-há, foi outrora
e nenhuma coisa esqueci embora
não sei porque só aparece agora.
***
Nha Maria, triste, com voz entupida
com cara de pessoa muito sentida
diz ao marido com uma voz dorida:
Hoje, nem um pinguim d’àgua pura
para molhar o fundo dessa caldeira
qonta mais um coisinha de gordura.
Nos olhos do marido só amargura
pois tais dias não eram de fartura
só tinham a necessidade e agrura.
Nhô Mano encheu-se de coragem,
hesitou mas garatujou mensagem
que o seu filho daria à passagem.
Um amigo é para justo momento
e pensou que dele viria um alento
embora fosse usurário e avarento.
Uns vinte e cinco mil réis queria
o bastante para a família um dia
mas nem isso o miserável cedia.
A casa que fora aprazível cenário
um paraíso, um éden imaginário
estava como melancólico velório.
Sem criança irrequieta sorrindo
sem parente sempre bem vindo
ou ainda vizinhos indo e vindo.
O galo que cantava festivamente
anunciando o dia, o sol nascente
foi sacrificado impiedosamnete…
Até mesmo os bonitos passarinhos
que, suspensos no altos dos ninhos
alegravam o tempo e os caminhos
Bateram as asas, desapareceram;
os que ali viviam se ausentaram
e mesmo as almas desvaneceram.
Com o tempo o modo estremeceu
a gente de outra conduta pereceu
bichos e plantação, tudo faneceu.
O milho, a lenha, a fava, o feijão
Praça, Salina, Festas de S. João
Matiota, Baía foram e já não são.
Prezado conterrâneo, meu irmão
imploro que me dês o teu perdão
pois cada um de nós tem sua razão
Amanhã vai passar mais um Natal
que não será como os outros igual
para minha família nem ceia frugal.
– Valdemar Pereira, Tours, França

Prezado Manoel Brito Semedo
Há algum tempo tenho pousado nessa esquina para comentar as postagens do amigo Valdemar Pereira. Mas hoje, especialmente desejo expressar ao Manoel Brito Semedo a minha satisfação em sentar aí nesse banco, em frente ao prédio do relógio e parabenizar a você e à toda equipe, pelo bom gosto do blog, pela corrente formada por seus colaboradores, que distribuem cada um do seu jeito e forma, bons artigos, poemas, imagens, etc. enriquecendo a Esquina do Tempo.Um Natal de PAZ e LUZ , desejo daqui da Bahia, do Brasil,
Yara.
***
Para Valdemar Pereira, o meu parabéns, com o coração apertadinho depois de ler esse poema-saga tão bem escrito.
Ele (o poema) saiu de Tour, atravessou o imenso degradé azul do oceano para chegar à Ilha do poeta; e, pegou ao mesmo tempo, um braço de mar para chegar até Salvador, Bahia. Encantou-me.
O esquecimento é inimigo do cofre de lembranças, Valdemar. No final da viagem são as recordações que transbordam em lágrimas, no Mar.
Um “braça pa tude gente”, de Feira de Santana- Bahia- BRASIL
Yara
Um abraço destas ilhas do meio do mar e votos de um Feliz Natal!
São pessoas sensíveis como a Yara que me incentivam cada dia nesta partilha da coisa cultural cabo-verdiana, ao mesmo tempo que é uma evocação e uma homenagem à Ilha do Porto Grande! Na verdade, os colaboradores do “Na Esquina” são generosos e estão sempre disponível nessa partilha. A cada um deles, um bem haja! Que o ano de 2012 seja de felicidade para todos!
Texto poético em que o Valdemar faz a nossa memória recuar a épocas de amarga pobreza e sofrida desolação. Texto que contém um recado implícito e com determinado endereço (como ele sabe que sei), mas que no conjunto dos versos rimadamente encadeados denuncia o reverso triste da mensagem natalícia, melhor dizendo, a face desnudada da anti-mensagem, com que, infelizmente, se confronta uma imensidão de criaturas humanas. Para mais, nestes tempos em que os princípios cristãos de solidariedade e fraternidade são postos em causa por filosofias mercantilistas que derrogam a essência humana, eis que o conteúdo do texto do Valdemar parece infelizmente carregado de uma trágica actualidade.
Que regresse o Menino Jesus onde quer que ele esteja.