Quêl bonita scrába,
Qui teném câtibo,
Pamô n’ dál nha bida,
Cá crê pan stâ bibo.
Tê hoje n’ c ôlhâ rósa
Num môta berdinho,
Qui mé na nhá olho
Parcém más sabinho.
Nim ramo na campo,
Nim strella na ceu,
N’ ta áchâ tam frumóz’
Cumâ nha crê cheu.
Rôsto só di sel;
Olho madornádo,
Preto, stancadinho,
Má sem ser misiádo!
Um dónar cu bida
Stá nel ê mórádo`
Pâ ser sinharinha
Di quem qu’ é marrádo.
Cabillinho preto,
N’ dé gente bóz’
Ta perdê entender
Mâ lôro é frumóz’.
Arinho tam sábe…
Pritura de amôr,
Qui nebe jurál
M’ el ta trocá côr.
Mansura contente,
Má séria lá mé…
Ta parcê bem stranho,
Má brabo el cá é!
Arinho dómádo
Qui ta mansâ mar:
Imfim n’ el scançâ
Tudo nha pêzar.
Es ê quel câtiba
Qui teném câtibo;
N’ pô n’ sta bébé n’ el
N’ al lidâ n’ stá bibo.

– Eugénio Tavares, “Bárbara, Bonita Scraba”, in Xavier da Cunha, Pretidão de amor. Endechas de Camões a Barbara Escrava Seguidas da Respectiva Tradução em Varias Linguas e Antecedidas de um Preambulo, Lisboa, 1893.
Eugénio de Paula Tavares
(Brava, 18.Outubro.1867 – 01.Junho.1930)

Absolutamente o meu poema de Camões preferido, em qualquer língua. Mas, é verdade que o crioulo lhe dá uma doce sonoridade…
Comprova-se, mais uma vez, a plasticidade da língua caboverdiana ao se traduzir um Camões lírico e só Eugénio Tavares e a sua variante doce da Brava se prestariam a isso. É essa diversidade dos crioulos que enriqueca a nossa língua, salvaguarda a nossa identidade local e me encanta!
M. C., obrigado pelo comentário e por ser sensível a essas nuances da nossa língua e cultura.
Devido a problemas tecnicos nao posso transcrever o lindo poema de Leopold Senghor ” Femme noire ” onde nao so ‘ fala da beleza da mulher negra mas também da sua importância na sociedade africana. Sera’ que o poema Rosa Negra de Amilcar Cabral que andou de braços dados com os poetas da negritude se tivesse inspirado do poema de Senghor ? O poeta Eugénio Tavares seria certamente o ultimo refugio do romantismo português nos tropicos? Com Eugenio Tavares morreu, na poesia, o ultra-romantismo de influencia portuguesa, para dar lugar a uma outra poesia livre comprometida com Cabo Verde. Aprecio, meu caro menino de Chã de Cemiterio, o teu imenso amor e reconhecimento à Xanda, tua mae e a tua âvo’, que eu também conheci de criança, no meu trajecto entre o Monte Sossego e Chã de Cemiterio. Abraços
Com um abraço para o Luiz Silva, aqui vai:
Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté
J’ai grandi à ton ombre; la douceur de tes mains bandait mes yeux
Et voilà qu’au coeur de l’Eté et de Midi,
Je te découvre, Terre promise, du haut d’un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein coeur, comme l’éclair d’un aigle
Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir, bouche qui fais
lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses ferventes du
Vent d’Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui gronde sous les doigts du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l’Aimée
Femme noire, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de l’athlète, aux
flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta
peau.
Délices des jeux de l’Esprit, les reflets de l’or ronge ta peau qui se moire
A l’ombre de ta chevelure, s’éclaire mon angoisse aux soleils prochains
de tes yeux.
Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l’Eternel
Avant que le destin jaloux ne te réduise en cendres pour nourrir les
racines de la vie.
Extrait de
” Oeuvres Poétiques”
Le Seuil (http://www.poesie.net/bibcdp.htm#senghor)